Autor deste Blog entrevistado sobre a Avaliação dos alunos (PARTE I)

 


 

"Há que combater, sem tréguas, a lógica de que cada sala é uma quinta, que cada escola é uma ilha para não acabarmos naufragados num qualquer arquipélago"



  • Entrevista conduzida por Ana Beatriz Gonçalves Costa a José Manuel Alho 


Como profissional da educação que é, como professor do 1.º Ciclo, gostava de saber o que é para si avaliar. Que conceito tem de avaliação, de avaliação das aprendizagens dos alunos.

Para mim, a Avaliação acaba por ser um processo determinante, de monitorização da eficácia das estratégias adoptadas do professor, da sua postura, do seu comportamento, da planificação que faz dos conteúdo, das estratégias que decide adoptar em favor da turma, enquanto realidade necessariamente específica. Portanto, a avaliação será um um processo multifacetado que resultará desta amálgama de opções e variáveis, que têm a ver com a acção do professor, Nessa lógica, é sempre um processo aberto, sem etapas definidas, sem fronteiras fixas, mas que aponta para um fim tem necessariamente que ser comum a todos nós, profissionais da educação, independentemente da escola onde exercemos funções: o sucesso educativo. Complementarmente, a avaliação acaba por ser esse processo de monitorização constante, que está sujeito a alterações, que é aberto mas que visa, no essencial, descortinar caminhos e soluções para o tão almejado sucesso educativo.

 

Especificamente no 1.º Ciclo, conhece a legislação que existe sobre avaliação? Tem alguma opinião formada sobre ela? Acha que é adequada? Como é que acha que a avaliação deveria ser implementada?

Apesar desta torrente megalómana de produção legislativa com que os professores têm sido confrontados nos últimos anos, a avaliação deverá, no meu entendimento, ser enquadrada como o desafio maior de tornar o aluno capaz de. Assim, acho que as aprendizagens têm que ser forçosamente significativas, viradas para aquilo que o aluno - em função das suas características pessoais, das suas aptidões inatas - deverá ser capaz de fazer e de optimizar. Vou dizer uma verdade absolutamente universal e consensual: a avaliação deve ser contínua, sistemática e flexível. Não deve por isso socorrer-se só dos testes. Quer queiramos quer não, e mesmo que as pessoas digam o contrário, as fichas de avaliação sumativa são ainda tidas como ferramentas sacrossantas para avaliação do aluno e, mais recentemente, do professor. Em boa verdade, acho que os professores se deixam por vezes condicionar excessivamente pela necessidade de fazer avaliações periodicamente formais. Entendo que não se deve prescindir da avaliação formal, mas cada vez mais temos que ter meios auxiliares de observação, que sistematizem o registo dessa observação, que salvaguardem o professor enquanto profissional extraordinariamente bem preparado. Deve-se, contudo, resistir à tentação de cairmos em excessos perniciosos, de, por exemplo, termos um sem-número de grelhas, um sem-número de ferramentas e é aí que os agrupamentos, como unidades autónomas, que se desejam rapidamente comparadas a organizações na acepção mais nobre do termo, devem aceitar o repto de uniformizar procedimentos para que não haja em cada escola ou sala, instrumentos e formas de encarar a avaliação ostensivamente diversas e, pontualmente, incompatíveis. Competirá a essas organizações estabelecer - bem ou mal - as suas prioridades, os meios, os recursos, enfim, que caminho seguir para concretizar o seu registo de interesses. É importante saber porque se escolheu este caminho e não outro, que destinos nos poderão aguardar, em resumo, que fins comuns nos unem na prossecução da nossa acção educativa. Há que combater, sem tréguas, a lógica de que cada sala é uma quinta, que em cada escola é uma ilha para não acabarmos naufragados num qualquer arquipélago administrativo onde o isolamento é a principal marca identitária. Os agrupamentos devem, além da autonomia administrativa e financeira, mais preocupar-se cada vez mais em ter prioridades pedagógicas e educativas, sempre em diálogo com os professores, com as associações de pais (que são parceiros que gosto de valorizar), com as autarquias e os demais protagonistas da chamada sociedade civil.

 

Já falou em pais, na importância das Associações de Pais, qual é a sua opinião em relação à participação dos pais na avaliação? Quando digo isto é sempre na óptica da avaliação das aprendizagens dos alunos.

Estamos cada vez mais a viver tempos inusitadamente difíceis. Nunca como agora a denúncia de casos de crianças em risco nas comissões de menores atingiu os níveis que são conhecidos a nível nacional. Creio que o número deverá ser ainda mais preocupante porque infelizmente a realidade vai indiciando o aumento de situações de risco potencial . Parece que haverá colegas que terão muito receio em denunciar as situações dos seus alunos em risco. Até sou capaz de os compreender. Sei por experiência própria o desgaste que isso acarreta, principalmente quando tudo o resto em redor parece falhar ou mesmo ser instrumentalizado para atingir o professor. Mas a reflexão que devemos fazer, como cidadãos livres e educadores responsáveis, é a de como é possível, no início de novo século, existirem tantas crianças que raramente tomam banho, que não têm material basilar para o estudo, que chegam à sala de aula com olheiras profundas, que não jantaram na véspera ou que, mesmo doentes, as famílias não as vêm recolher à escola e esperam dias para serem levadas ao médico?! Como pai, pergunto-me: que pais são estes que permitem violentar por estas vias os seus filhos?!! Bem sei que isso não constitui a amostra representativa dos pais; acredito que não. Mas acho que também aí as associações de pais podem ser muito importantes se cativadas como parceiros. No geral, defendo: quanto mais associações de pais existirem, melhor.

No mais, está reservado às associações de pais ter um papel fundamental. Porém, questiono-me se os pais estarão mesmo preparados para estar num Conselho Pedagógico ou num Conselho Geral, se entretanto forem manipulados ou instrumentalizados para, por exemplo, manterem um determinado “status quo”... Quero acreditar que sim, desejo ardentemente que sim, mas os exemplos que vejo em redor provam uma de duas situações: ou que os pais não estão preparados e vão para estas reuniões como saem, em absoluto silêncio; ou então assumem uma postura vigilante, responsável e globalmente assertiva. Esperemos que esta última comece a ser a regra…

 

Mas especificamente em relação à avaliação, e pela experiência que tem, os pais, na generalidade, preocupam-se com a avaliação? De que forma?

Eu tenho sido um afortunado com os pais das turmas que ultimamente me calharam em sorte nos últimos anos. Não direi que agradarei a todos, pois não é pretensão que me anime. Terei tido, vá lá, um misto de sorte e de alguma experiência acumulada. Às vezes, acontece que alguns, de facto, entregam-se à lógica da visitinha de médico que ocorre em cada período lectivo, para lerem o respectivo boletim trimestral. Trata-se de uma forma muito ligeira de saber o que se passa. Mas, graças a Deus, a maioria dos pais com quem tenho trabalhado, o relacionamento tem sido de efectiva proximidade. Gosto de enfatizar a necessidade de remarmos para o mesmo sítio e ao mesmo tempo; que o trabalho do professor só por si não vale nada; a aprendizagem da criança extravasa em muito o quotidiano de uma sala de aula e, portanto, deve estabelecer-se uma parceria ao ponto de já ter sugerido – meio a brincar, meio a sério – a matrícula da Família na Escola. Faço questão de dizer às pessoas que os professores também são profissionais sujeitos ao erro e ao cansaço, enfim, que também para nós há dias bons e dias maus. Este diálogo enfatizando a essência humana do professor tem facilitado as coisas. Facilita em quê? As pessoas não precisam de estar à espera do horário de atendimento, no meu caso, para virem ter comigo. Dialogo com as pessoas sem prejuízo da actividade lectiva normal. Chego à minha escola, saio do carro, as pessoas interpelam-me e eu tento, com respeito pela privacidade que cada relação deve ter, corresponder às solicitações mais prementes dos pais. A parceria com a família no processo de avaliação é fundamental porque acaba por ter uma consequência benéfica que é a co-responsabilização e faz com que a avaliação seja partilhada. Em consequência, os resultados vão ser forçosamente positivos. Não vejo a avaliação como uma “arma” de arremesso, ou como o trunfo final, do género eu “tenho a faca e o queijo na mão” portanto “pais e filhos portem-se bem porque senão engendro aqui a minha jogada de mestre e faço o xeque-mate.” Nada disso.

Há uns anos atrás alguém disse que a avaliação deveria ser privatizada porque acabaria o monopólio do professor. É minha convicção que há muito essa lógica de actuação se extinguiu com o tempo. Acho que os professores devem abrir o processo de avaliação aos pais, participar com eles e envolver outros parceiros. Falo pelo exemplo da escola onde estou, integrada num meio francamente carenciado aos mais diversos níveis. Mas com as colectividades, com as pessoas das autarquias e de outros movimentos associativos - que têm às vezes uma disponibilidade e uma experiência de vida que lhes possibilita colaborar genuinamente com a Escola - a avaliação acaba por ser um processo dinâmico de inclusão em que as pessoas são chamadas a dar o seu contributo, embora em termos formais e finais, quer queiramos quer não, é assim que o sistema está, é o professor quem toma a decisão final.

 

E em relação ao seu dia-a-dia com os seus alunos, em contexto de sala de aula, gostava que me caracterizasse o tipo de avaliação que põe em prática. Falou-me dos testes, mas para além disso que instrumentos é que utiliza…O que é que faz para avaliar os seus alunos?

Com os meus alunos, esforço-me por diversificar as formas de tratamento e as estratégias tomando cada aluno como realidade una mas complexa. Tento, por norma, uma abordagem personalizada, de proximidade. Tento sentar-me ao lado dos meus alunos e, a certa altura, já sei o que é que cada um representa, as suas limitações, as suas potencialidades…

Os instrumentos de avaliação, que resultam de orientações superiores, provêm do Conselho Pedagógico e do Conselho de Ano, mas dependem igualmente daquilo que são as prestações em contexto sala de aula, não só em termos cognitivos como também daquilo que eu considero importante para a formação de cidadãos autónomos, livres e responsáveis. Esforço-me, principalmente, por ser capaz de pô-los (aos alunos) a pensar…

 

Também sobre a avaliação deles? Pratica auto-avaliação?

Sim, auto e hetero-avaliação. E extravasa em muito a componente formal dos testes. Tem a ver com trabalhos feitos nas diversas áreas e, portanto, a avaliação assentará, essencialmente, na observação, na constatação de que o aluno está a fazer o seu percurso, que caminho está a fazer. Acabo por ser um coordenador e animador de aprendizagens, na medida em que não espero nem obrigo ninguém a fazer o mesmo caminho, a passar pelas mesmas etapas. Cada um é um projecto de aprendizagem, cada um é uma individualidade e nessa óptica não quero tentar impor nada a ninguém porque há alunos que aprendem de qualquer maneira, até com um mau professor; outros há que precisam da tal proximidade, da tal personalização do ensino.

Com efeito, a avaliação e os instrumentos a que recorro acabam exigem registo, não só em grelhas mas também em textos, anotações no meu dossiê, nos livros dos alunos. Como os demais colegas de ofício, faço, por norma, testes trimestrais. Não gosto de dar aquela carga solene possivelmente decorrente da situação. Gosto de brincar e até lhes digo (aos alunos): “agora vamos fazer umas coisitas para os processos…” (risos)

 

Sente que os meninos têm noção de quando estão a ser avaliados?

Claramente.

 

 


(continua)

Comentários

  1. Avaliar é uma tarefas mais difíceis neste ofício. A legislação existente veio burocratizar demais uma tarefa já de si ingrata...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário