Autor deste Blog entrevistado sobre a Avaliação dos Alunos (PARTE II)

“Creio que o desafio diário que se coloca a todos os professores é TOCAR os seus alunos, deixar ou ser uma referência inequivocamente positiva. Mas tudo isto é um processo contínuo, que exige tempo e cumplicidade.”


 


  • Entrevista conduzida por Ana Beatriz Gonçalves Costa a José Manuel Alho 


 

E isso poderá prejudicar o seu rendimento e os resultados?

Depende. Cada caso é um caso. Muita da pressão vem de casa. Em alguns casos, ocorrem bloqueios dado que a estrutura emocional e afectiva de uma criança do 1.º CEB, nos seus traços distintivos, ainda não está formatada para suportar esse ónus. Há quem defenda que assim as crianças percebem a responsabilidade a que estão sujeitos…

Sempre que tenho uma turma desde o 1.º ano, tento até desmistificar um pouco  a figura do Processo Individual do Aluno. Procuro que a organização do mesmo seja um momento natural, feito com os alunos. Este procedimento tem igualmente o condão de eles (os alunos) ficarem a perceber que há necessidade de ter, também neste caso, processos organizados, de maior pendor formal, para mais tarde consultar. As crianças quanto mais jovens, maiores são os seus receios de defraudar as expectativas lá de casa. Podem tender a deixarem-se tomar pela insegurança, pelo medo, enfim, por um conjunto de circunstâncias que nós, às vezes, nem sequer dominamos e que escapam ao nosso conhecimento pois são questões que contendem com dinâmicas familiares. Não sou psicólogo nem pedopsiquiatra, apenas estudei Psicologia do Desenvolvimento e Psicologia da Aprendizagem. Entendo que tudo se consegue conversando e, acima de tudo, escutando. Crianças há que às vezes, num momento de maior tensão, basta uma palavra, um gesto, um olhar, um toque…

Aqui há tempos estava a ver um documentário sobre psicologia comportamental adaptada ao desporto. Está provado que um jogador, de qualquer modalidade, quando é tocado pelo treinador ou quando recebe um gesto de confiança do colega, como uma mão no ombro ou um carinho na cabeça, a motivação aumenta e a capacidade de superação é accionada. Creio que o desafio diário que se coloca a todos os professores é TOCAR os seus alunos, deixar ou ser uma referência inequivocamente positiva. Mas tudo isto é um processo contínuo, que exige tempo e cumplicidade. Não traz resultados imediatos, mas cumpre reconhecer, numa abordagem mais genérica, que viver sob pressão faz parte da vida e quanto mais depressa o compreendermos e o aceitarmos, maiores serão as possibilidades de fazermos uso de certas ferramentas que nos tornarão, a todos os níveis, mais habilitados e capacitados.

 

Gostava especificamente de abordar uma modalidade de avaliação que é a avaliação formativa. Este conceito…O que é para si a avaliação formativa?

A avaliação formativa acaba por ser uma forma de, quer professores, quer os alunos, poderem aferir, a cada momento, de como está a decorrer o processo ensino-aprendizagem, de como está a ser consumido, entre aspas, o processo de assimilação, de acomodação e aplicação dos conhecimentos. Encaro a avaliação formativa na minha prática pedagógica como uma forma de também saber se as opções que assumi e o caminho trilhado estão a ter os resultados que esperava. Se sim, óptimo! Se não, tenho que ter o profissionalismo, feito também de humildade, de indagar dos factores e razões que possam estar a inquinar todo o processo. Nessa óptica, avaliação formativa é uma sondagem estruturada que o professor faz para, num dado momento, monitorizar a qualidade e eficácia do seu trabalho.

 

E julga que para colocar em prática essa modalidade de avaliação, avaliação formativa, precisa de algumas condições específicas?

Numa visita de estudo podemos fazer avaliação formativa, desde que saibamos depois tratar a informação fornecida pelo “antes”, “o durante” e “o depois” dessa actividade. Através de uma Área de Projecto, que parece subitamente desvalorizada em favor de projectos que garantam visibilidade a certas estruturas. Aprecio e reconheço grandes méritos a esta modalidade (Área de Projecto), porque incute, de forma despretensiosa, uma mentalidade de projecto, de trabalho em pares, de parceria e em comunhão de esforços. E tudo isso fortalece as dinâmicas de grupo enquanto propulsionadoras das virtudes de uns e do combate às limitações de outros. Não havendo receitas sagradas, de efeito garantido, a avaliação formativa implicará sempre leque variado e diversificado de opções. Depois coloca-se ao professor o repto de saber filtrar essa informação e registá-la de forma sistemática. Essa informação recolhida deve ser posteriormente tida em conta na redefinição, desejavelmente contínua, das práticas pedagógicas de cada docente. Não há práticas que se mantenham, apesar dos devir dos tempos, sacrossantas para todos os alunos, e aí eu defendo, como sempre defendi, turmas reduzidas no 1.º Ciclo, que não ultrapassem os 18 alunos. Porque o grau de autonomia das crianças destas faixas etárias é reduzido, as famílias hoje não têm uma dinâmica que lhes permita estar e acompanhar os seus educandos como antigamente, reuniram-se as condições para se apostar, sem resiliência, num ensino personalizado, individualizado, de proximidade afectiva e emocional, que potencie o melhor dos professores e dos alunos.

 

Voltando outra vez à sua experiência profissional, acha que os professores, de uma maneira geral, atribuem muita ou pouca importância à avaliação formativa?

Sinceramente, muitos de nós, às vezes, fazemos avaliação formativa sem o sabermos. Não tenho dados objectivos para fazer uma afirmação sentenciosa – não passa de uma presunção especulativa da minha parte – mas não estarei longe da verdade se disser que todos os professores fazem avaliação formativa. No entanto, é imperioso sistematizar a informação recolhida para, naquela óptica há pouco referida de auto monitorização, aperfeiçoarmos estratégias, métodos e até corrigirmos situações menos boas.

 

No final, acha que esses professores têm em conta a avaliação formativa que foram fazendo?

Sim. Porventura instintivamente e de forma reflexa, não muito deliberada, acabamos todos por validar as diversas modalidades de avaliação formativa que implementámos. Outros há – e são muitos – que, apesar do crescendo de atribuições administrativas ou burocráticas a que todos foram entregues, registam minuciosamente todos os resultados e suas variáveis. Esta questão entronca numa outra que é a de perceber, de uma vez por todas, que os docentes devem centrar os seus esforços e energias exclusivamente na actividade lectiva. Tal exigirá nova mudança de paradigma, como que um regresso ao passado. Nem tudo o que se fez no passado é mau! (risos) A História prova que as questões de mentalidade são o passaporte para as mudanças positivas, genuinamente transformadoras; não mudar por mudar, mas mudar para transformar. E isso vai demorar o seu tempo.

 

Então que importância atribui à formação dos professores em avaliação? Acha que está disponível? Acha-a necessária?

Precisamos de formação. É obviamente necessária. Contudo, a julgar por alguns professores que tive na Universidade, por alguns formadores que conheço, será uma margem muito marginal, passo a redundância, de pessoas que estarão realmente habilitadas a fazer formações sobre avaliação. Recordo-me de uma acção de formação sobre avaliação por mim frequentada que rapidamente se transformou num debitar de legislação e de bibliografia absurdamente irrelevante. E tudo se resumiu a isso. Creio que ao nível do 1.º Ciclo a situação não será tão preocupante quanto aquela que verifico poder ser em outros níveis de ensino. Talvez pela monodocência… A formação de e com qualidade é, sem dúvida, importante, mas tem de ser garantida pela tutela. Nesta matéria, e mau grado algumas tentativas recentes de motivações muito discutíveis, não pode haver margem para zonas nebulosas.

 

Gostava que me caracterizasse em poucas palavras a relação que habitualmente estabelece entre si e os seus alunos.

Ontem como hoje, tenho uma relação diferente com cada um dos meus alunos. Pelo menos, esforço-me diariamente por isso. Quando um ser de 6 anos de idade entra numa escola e vê o(a) professor(a), imaginará que ele ou ela será um ser de outro mundo, com uma vida muito especial, oculta até; uma pessoa distante. Muitos destes conceitos ainda são, reconheça-se, inculcados pela sociedade. Nos primeiros dias de aulas, quando me apresento a uma qualquer turma do 1.º ano, começo por dizer-lhes que o meu pai era tipógrafo (risos) – tenho que explicar, na medida do possível, o que ERA um tipógrafo; a minha mãe era cozinheira num hospital; quando tinha a idade deles, acordava sem ninguém em casa e que tinha o café frio e um pão do dia anterior em cima da mesa porque os meus pais iam para o trabalho muito cedo e não tinham tempo para me comprar pão do dia quanto mais para me vestirem…Eram tempos em que já tinha a chave da casa e quando chegava para almoçar, comia sozinho; retirava a comida dos termos e arrumava a louça, enfim, fiz por desmistificar alguns (pré)conceitos que às vezes a criançada assimila. Findo este degelo, lá estou eu desnudado de todos os meus supostos privilégios, de alguém na vida que, num passe de mágica, se tornou professor! Desde que me conheço que procuro ter uma relação humanista e humanizada. Tento tocar literalmente os meus alunos. Em abstracto, quando somos colocados num meio porventura machista, onde, por exemplo, o Pai não seja muito dado a carinhos ou proliferam famílias disfuncionais, é ainda mais importante investir no afecto. Já me aconteceu abraçar os alunos e eles ficarem um pouco surpresos, empedernidos ao ponto de quase não retribuírem. Quando dava um  sonoro “bom-dia” ou lhes dizia que estava “mesmo contente” com que o que tinham feito, olhavam-me com perplexidade… Passado algum tempo, conclui-se que vale sempre a pena. Sou um “tipo” que veste calções, que conhece e usa alguma da linguagem deles e, como eles/elas, não gosta de perder nem a feijões! (risos)

Simultaneamente, sou exigente. Alguns apelidar-me-ão de conservador, mas sou, por natureza, um viciado pela pontualidade. Portanto, chegar às 9 horas não é o mesmo que chegar às 09:05H. Sou sempre o primeiro a entrar e o último a sair da sala; gosto que os alunos atrasados batam à porta e cumprimentem com um “bom-dia” os colegas que chegaram a horas. No fim de um dia de aulas, aprecio deixar uma sala de aula com as mesas alinhadas, as cadeiras encostadas e o material arrumado, sem papéis no chão… São hábitos transponíveis para o resto da vida toda; o ser metódico, organizado, pontual…

Em resumo, e sem me ater a nenhuma situação concreta – falando sempre no geral - a minha relação com uns alunos resume-se a uma busca incessante por um equilíbrio entre a Exigência, enquanto valor estruturante, e aquela relação que faço por ser humanista e humanizada. Falamos às vezes de crianças carentes; algumas só verão realmente a sério os pais ao fim-de-semana, porque agora há muitos encarregados de educação a trabalhar por turnos e nem sequer se encontram com a disponibilidade recomendável. O professor acaba por ser um actor que se desdobra em múltiplas personagens para atingir um público muito diversificado. Assumo por isso vários rostos, várias figuras porque tenho que chegar a alunos de maneira diversa porque todos são diferentes. E a essência do famigerado desgaste rápido e intenso do professor do 1.º ciclo residirá nesta necessidade nos transformarmos, de nos reinventarmos aos olhos de quem tem a PSP ou o Programa da Lucy como alternativas bem mais apelativas! (risos)

Isso dá-me um gozo impagável e apura a capacidade do Professor para se relacionar com a diversidade e de conhecer a complexidade da individualidade humana.

 

 

 

(continua)

Comentários

  1. Esta entrevista mostra o lado mais humano do professor. Há muitos que passaram e passam sacrifícios. Gosto da forma como este professor se exprime. Tem ideias claras e compromete-se com elas. Mas não concordo que todos os colegas façam avaliação formativa. É muito raro.

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