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Veredictos no
cemitério
dos sonhos
Falta o casaco, derradeira peça que compõe a figura de tão distinto neurorradiologista. João Carlos, ainda com metade do pão na mão direita, despede-se apressadamente da mulher, uma simpática farmacêutica, e do seu filho único, o desafiante Tomás, com a promessa de “logo, quando vier, veremos quem é rei na PlayStation”.
Chegado ao centro onde monitoriza e relata tomografias computorizadas e ressonâncias magnéticas, descarta de imediato o mesmo casaco no já celebrizado cabide que por estes dias é só seu por direito. Agora é como se envergasse a camisola do seu FCP. Uma bata, com a designação da empresa em alto-relevo, confere-lhe uma aparência vincadamente institucional. A técnica que o acompanha já o esperava. Joana acolhe os pacientes e executa, com assinalável rigor, todos os preparativos. É uma parceira na verdadeira acepção do termo. Com ela, os mais temerosos nem parecem temer a picadela da injecção de contraste. A qualidade do exame começa por depender dela.
Por norma, nem chega a falar com aqueles que se têm de submeter ao concludente veredicto das novas tecnologias. Há que apreciar as maravilhas do progresso. Muitas vezes, entre colegas, lembra: “antes, abria-se para ver; hoje, vê-se primeiro para abrir depois…” João Carlos optou, contra a sua natureza, por ser de poucas palavras. Circunspecto na forma, decidiu confinar-se à objectividade do perímetro da cabine onde, em primeira-mão, vê, constata ou descobre o que outros nem sempre suspeitaram.
Nos primeiros tempos, quando as notícias eram mesmo “muito más”, ainda se aventurava em mentalizar os examinandos para o “gancho” que a vida se preparava para lhes infligir. Como quem está para morrer não gosta de o saber, as reacções foram de molde a convencê-lo a não repetir semelhante generosidade. Com a tarimba que o tempo impõe, percebeu que ser mensageiro de tão severos prenúncios não compensava. Passou muitas noites em branco. Houve momentos de dolorosa agonia onde irracionais sentimentos de culpa o consumiam até à medula. Foi então que deliberou de si para si. Os colegas que requeriam aqueles exames que assumissem doravante, e na íntegra, o ónus de participarem tão infausta notícia.
Por ora, assume que tudo se resume ao preenchimento de um documento com uma estrutura assumidamente sagrada: Técnica, Relatório e Conclusão. Já basta ter de emprestar a sua assinatura a tão crescente número de sentenças de morte neste tempo onde viver pode ter deixado de ser um privilégio singular.
Para esta manhã, um conjunto de exames de alcance previsível. Neste momento, entrou uma jovem professora cuja ficha diz estar à beira dos vinte e sete anos. A imageologia confirma o pior. Recosta-se na sua agora desconfortável cadeira. No rosto da paciente, imagina um mosaico de imagens especulando sobre o que terá sido a sua vida e presumindo o que esta lhe reservará no futuro próximo. Por instantes, amaldiçoa as máquinas. Sentira novamente compaixão por alguém que não conhecia, aquele tipo de empatia que só se gera no infortúnio. Sente um arrepio no estômago mas defende-se com o instintivo cinismo de quem, apesar de tudo, sabe que não vai ter de dar a cara. Não vale a pena. O relatório será preciso e esclarecedor. Infelizmente.
Lá no fundo, João Carlos, sabendo não ser nenhum coveiro cooptado pelas novas tecnologias, sente-se ainda assim alguém pontualmente desprezível. Naquela sua arena profissional, cemitério imprevisto de muitos sonhos que ali jazem sem apelo nem agravo, pressente o turvo movimento de almas precocemente traídas. Ele é o homem dos veredictos que, contra tudo e contra todos, alimenta a compreensível vontade de, uma vez por outra, estar enganado.
José Manuel Alho
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Comentários
Os médicos também são seres humanos!... Sou médica e vejo-me muitas vezes neste papel tão difícil de dar uma notícia que pode arruinar os sonhos de qualquer um. Tantas vezes gostaria ter-me enganado...
ResponderEliminarTocou-me imenso.