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A arte de bem apajear o “dono”
Ao que parece, longe vão os tempos em que “ser senhor da nossa vontade e escrevo da nossa consciência” norteavam não só a acção como a existência humanas. Esta é a era que estigmatizou a diferença de opinião. Nunca como agora a discórdia foi facciosamente confundida com discórdia. A tolerância à diversidade de opinião é, cada vez mais, um predicado da Democracia difícil de cumprir. Por tudo e por nada, o que parece cativar e reunir simpatia(s) é seguir a opinião maioritária sem cuidar dos fundamentos que asseguram a sua prevalência. Pensar, à semelhança do que havia em tempos garantido Fernando Pessoa, “incomoda como andar à chuva”.
Está por isso instalada a lógica do fútil, da confrangedora iniquidade oportunista, da apatetada disponibilidade par dizer sim a qualquer um(a) só porque circunstancialmente detém (um) poder, da apalermada tentação de temer correntes maioritárias, da apanascada vontade de agradar ou da fácil aleivosia de tudo querer sem olhar a meios.
Nos locais de trabalho, nos organismos públicos, na vida associativa, na vida política e social a solução que muitos parecem ter encontrado resume-se à douta opção de seguir a cartilha de um folacho “yes man”. Tudo aceitar sem nada questionar vale ouro, isto é, o reconhecimento hierárquico de uma postura intrinsecamente oca, de um roupeta afantochado, sempre descartável à luz de mais e melhores interesses.
Numa lógica em que o fiscal vigia o fiscal e o vizinho é útil para espreitar e vida alheia, o trunfo é passar desapercebido. Não dar nas vistas. Para isso, basta não ter ideias próprias, valores e ideais susceptíveis de indispor o “dono”. O “dono”, por sua vez, faz sentir aos apaniguados por si escolhidos o que mais aprecia e reprova - não vá o diabo tecê-las! Neste quadro “se” e ceguidista entram, com decisiva importância, as estruturas intermédias da cadeia do poder. Estas devem poupar o “dono” a aborrecimentos e quenturas que passarão muito bem arrumados por debaixo de um qualquer tapete. Nestes casos, a Lei que se lixe. Se bem se lembram, já o “outro” dizia que a Lei é para os burros lerem e os espertos interpretarem. E se há país onde os “espertos” parecem prosperar é este, onde a asnice há muito terá virado religião em meteórica ascensão.
Não se fie na ironia. Estaremos porventura num processo de empobrecimento intelectual, cívico e social, que importa contrariar o quanto antes. A consciência colectiva, mais do que apagar-se, parece estar a apascaçar-se. O medo ou o respeitinho pelo “dono” ameaça desventrar o ser humano pensante da saudável arbitrariedade de decidir o que quer pensar, dizer e fazer. E isto não é futuro que se deixe às gerações vindouras!
Na verdade, a doutrina que alguns desejarão impor resumir-se-á a um conjunto de sábias orientações e dicas, que poderia muito bem compilar-se num manual intitulado »A arte de bem apajear o “dono”»
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