Muito mais que uma festarola...


Alguém acode a


Senhora do Socorro?


A ESTRADA DA VERGONHA – A Rua da Senhora do Socorro, que tem registado um surto meteórico ao nível da construção, arrebata, há muito, o estatuto de “Estrada da Vergonha”. Num périplo por todas as freguesias do nosso Concelho, e tendo em conta o número de famílias residentes, não existe outra via em semelhante estado de degradação. Os remendos no já estragado pavimento ilustram o abandono a que há anos tem sido votado. As covas sucederam-se agora aos buracos. De quando em vez – habitualmente na semana que antecede as festividades em honra de Nossa Senhora do Socorro – lá vem uns senhores despejar alcatrão, no âmbito de trabalhos realizados sem qualquer coordenação, de que é fiel retrato a ausência de sinalização dando conta da realização de obras na estrada e os salpicos que conspurcam, com assinaláveis prejuízos, os carros dos mais incautos, já que os residentes, sem alternativa, já sabem “o que a casa gasta”. Sugiro que em vez de alcatrão, seja a terra a preencher as covas e se plante relva, solução que teria o condão de dar um colorido diferente à estrada e ter-se-ia assim a possibilidade de fomentar a prática do golfe.

SEMAFOROS – Muito recentemente, foram activados os semáforos no perigoso cruzamento junto à imagem de S. Judas Tadeu. Não sendo a solução, é uma alternativa que só pecará por tardia. Neste particular, é melhor que nada. Contudo, o trabalho ficou estranhamente incompleto. A marcação de passadeiras para os peões parece ter ficado para segundas núpcias. Deve ter faltado a tinta…

RECOLHA DE LIXO – Apesar de ser uma zona onde o coeficiente para aplicação do IMI (algo genericamente correspondente à antiga Contribuição Autárquica) é o mais alto de todo o Concelho, a zona tem sido efectivamente relegada para um plano secundário, que muitos apelidarão de desprezo. Digamos que a Senhora do Socorro não será propriamente uma zona… lembrada pelo poder local. Sintoma desse “esquecimento” foi o que se passou com a recolha do lixo. No momento, foi um serviço que se revelou, durante largo tempo, disfuncional, prestado com preocupante irregularidade, com claros prejuízos para a saúde pública. Neste último Natal, por exemplo, o lixo amontoou-se durante cinco dias. O mesmo sucedeu no Carnaval, na Páscoa ou em “pontes” recente e excepcionalmente férteis no poder autárquico. Quando sinalizada a situação, a explicação era sempre a mesma: “há muitos veículos avariados”. O esclarecimento era verdadeiro. Incorrecta é a gestão que se faz dos recursos nestas circunstâncias. É que nestas alturas, o centro da vila e outras zonas aparentemente privilegiadas, não vêem a recolha de lixos afectada. Quer isto dizer que, quando o pior acontece, há prioridades. E a Senhora do Socorro não é uma delas. O que nunca falha nem conhece atrasos é a cobrança da “Tarifa de Resíduos Sólidos Urbanos”. Para pagar, a população de Senhora do Socorro é tratada com igualdade…

SEM INVESTIMENTOS PÚBLICOS – Na zona da Senhora do Socorro não existe despesismo público. Existe o inverso. Ausência dele. Há anos que as autarquias não gastam um cêntimo numa qualquer infra-estrutura, por mais insignificante que fosse. As poucas valetas existentes para escoamento das águas pluviais foram feitas pelos construtores civis porque a isso foram obrigados pela edilidade. Os passeios são limpos quando há festa. Nunca se vê um cantoneiro tratar de nenhum espaço verde. E porquê? Porque nem um existe para amostra. Daí que recupere a sugestão da relva nas covas em vez do alcatrão.

No mais, cumpriria até sugerir a edificação de ciclovias, a aplicação de sinalização vertical que regrasse a velocidade automóvel, a instalação de pontos de água, vulgo bebedouros para peregrinos e até de bancos onde os viandantes pudessem recuperar o fôlego.

Em conclusão, fácil se torna concluir que o poder autárquico tolera a existência da Senhora do Socorro, mas está longe de ter uma estratégia que a valorize pois não pensa, para já, plantar sequer uma árvore.

INSEGURANÇAA zona é calma e por isso muito procurada. Não tem cafés ou outros potenciais focos de instabilização da ordem pública. A somar ao cantoneiro, junta-se a ausência de patrulhamento pela GNR. Principalmente à noite. E aos fins-de-semana. Além das práticas levadas a cabo na encruzilhada onde foi erigida a imagem em reconhecimento à Senhora do Socorro, aparentemente ligadas à bruxaria e à feitiçaria (será crime fazer um bruxedozito ao vizinho ou lançar um feitiço insignificante ao Tozé da mercearia?!), registo para a azáfama que a zona regista a horas pouco recomendáveis. O que poderiam então os militares encontrar numa qualquer acção surpresa de vigilância? Concidadãos sem habilitação legal para a condução, posse e (quiçá) tráfico de substâncias ilegais, de armas e até, numa versão mais optimista, condutores embriagados? São só palpites.

BICO DO MONTE DIVORCIADO DO CONCELHO – Reportando-me exclusivamente à enorme área onde se encontra a capela da Nossa Senhora do Socorro, é com lamento que constato a sua estagnação. Não ignoro as dificuldades nem duvido das boas intenções dos que assumiram a exigente responsabilidade de tratar daquele espaço. Não se trata de pessoas. Trata-se de opções, prioridades e estratégias. Apenas isso. A Senhora do Socorro é muito mais do que uma festividade realizada em Agosto, irritantemente anunciada com o mesmo cartaz de sempre, reunindo famílias engrandecidas com familiares emigrados. Mas também não é aquele mercantilismo bárbaro que voltámos a testemunhar durante as celebrações de Agosto passado, perpetuado pelas marcações dos feirantes que reservam o seu lugar de ano para ano.Não é nada disso, mas é muito mas que isso. Pela sua localização – atentemos na designação histórica “Bico do Monte” – existe ali um casamento feliz com a Natureza que só se encontra em locais verdadeiramente abençoados. Tem os predicados para ser, por excelência, um espaço de meditação, de ascese e meditação. Seja ela individual ou colectiva. Tem os atributos para ser um pólo de turismo religioso sóbrio. Tem as qualidades para se articular com a sociedade civil, promovendo hábitos de uma vida saudável, mormente através da prática desportiva. Mas, por razões que ignoro, está longe de potenciar tudo isto. Existe ali um património que muitos sonham ter e nós, enquanto colectividade, permitimo-nos ao luxo ou ao pecado de o negligenciar. Quem vem de fora e ali entra, em nenhum momento fica informado da história que contextualize a fé professada por tantos crentes ou a atracção que exerce sobre tanta gente. Não existe um placard ou uma pequena infra-estrutura que situe o legado testemunhado por tantas gerações. É preciso inovar, abrir horizontes e ter uma visão estratégica das coisas. Por exemplo, e obviamente à sua escala, sem cair em tentações megalómanas, o Museu Luz e Paz, em Fátima, poderia servir de ponto de partida a algo semelhante na Senhora do Socorro. Esta dimensão histórica só teria a ganhar se se estabelecesse uma parceria, por exemplo, com a Casa Diocesana. De igual modo, tem-se por premente um arranjo paisagístico da zona, aproveitando a diversidade arbórea da área, mas pensada por um profissional credenciado para o efeito. Tem de ser um investimento estruturante, que vá muito além da limpeza do mato bravio. Algo que compatibilize as origens remotas do “Bico do Monte”, enquanto referência de encontro e partilha entre famílias por meio de merendas e farnéis, com a sua inigualável dimensão espiritual. Por fim, cumpre democratizar a fruição de tão importante espaço. Mais do que esporádicos convívios paroquiais ou associativos que ali se realizam, importa fazer da Senhora do Socorro um exemplo da máxima “mente sã em corpo são”. Já existem sementes com o Agrupamento 838, pertencente ao Corpo Nacional de Escutas, integrado no Escutismo Católico Português. Contudo, é para mim factor de perplexidade que, por exemplo, o Grande Prémio de Atletismo de Albergaria, promovido pelo Clube Desportivo de Campinho, não tenha lugar precisamente no “Bico do Monte”. Faz-se no centro cívico da vila, com estrangulamentos e prejuízos vários para as populações, quando todo o aparato de suporte e apoio ao evento seria melhor acomodado na Senhora do Socorro, que também dispensaria o “doping” do ar puro aos concorrentes. Quem fala destas iniciativas poderia falar de outras.Também não percebo o divórcio com as escolas do Concelho. Como é possível não se lembrarem de saírem do presídio da sala de aula para “invadirem” o “Bico do Monte”, pelo menos, por ocasião do Dia Mundial da Árvore, do Dia Mundial da Criança ou do Dia Mundial do Ambiente?! As direcções executivas dos agrupamentos de escolas do concelho deveriam levar os seus docentes à Senhora do Socorro antes de planificarem as suas actividades. Muitos professores haverá a pecar sem saber…

E por aqui me fico. Creio que não bastará mudar. Será imperioso transformar, envolvendo a sociedade civil, as escolas, as associações e as autarquias locais, mesmo que estas últimas tentem, por todos os meios, esquivar-se às suas obrigações. A situação como está é que não pode continuar. Estamos todos a perder. Finalizo lembrando que as críticas ora veiculadas não visam as pessoas na sua individualidade. Quando toca a enriquecer a participação cívica em favor da prossecução do interesse público, temo-nos de deixar de susceptibilidades e melindres estéreis. Façamos todos um esforço par ver mais além.

 

PS - Não é que recaia sobre as pessoas que asseguram a gestão do "Bico do Monte" a mais ténue suspeita, mas conviria, numa lógica de transparência sempre recomendável, publicitar anualmente as despesas, as receitas, os donativos que marcam um exercício financeiro daquela infra-estrutura religiosa.

José Manuel Alho

Comentários