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Nasceu uma mulher
naquele S.João
Aberta a porta, atirou as chaves para a mesinha do telefone. Exausta, vocifera contra os enfeites de S. João que nunca como agora suscitaram tão instintiva oposição. Cristiana, recém licenciada em Direito, pressente uma atmosfera de despedida. Os objectos decorativos, os brinquedos da pequena Joana e as fotos com o marido, que sempre julgara conhecer como as definidas linhas das suas mãos, obrigam-na a desferir um olhar giratório como que compondo um embriagado mosaico de imagens do essencial destes últimos meses de uma falsa vida a dois.
Sentada no outrora experimentado sofá, cúmplice de tantas confissões e segredos, dos tais que carregam a futilidade de uma desejada intimidade, não logra furtar-se a uns hemorrágicos fios de lágrimas que assinalam uma dor que só um coração esgaçado pela mentira conseguirá suportar. Afinal, só haviam passado três anos sobre aquele sábado de estio onde se celebrara um surpreendente enlace antecedido de oito meses de intenso namoro. Ele, pejado de heranças, com um apelido capaz de abrir disputadas portas, decidira investir numa central de táxis na sempre cosmopolita cidade de Londres.
Espantada e totalmente desprecavida, aceitara na altura dar o seu apoio ao último devaneio do agora determinado marido. É nestes momentos que se fazem os companheiros. Ele estava mesmo animado e confiante nos méritos deste seu empreendimento. Seguiram-se múltiplas viagens à capital inglesa que Cristiana, por dever do ofício que abraçara como um sacerdócio vitalício, optara por não acompanhar.
Há semanas, no intervalo de um julgamento, daqueles que ameaçam arrastar-se por manifesta litigância gratuita das partes, não enjeitou o ensejo de, sozinha, ir ao encontro do mais que provável futuro empresário de sucesso. Incrédula, deparou-se com uma amálgama de táxis mal lavados, encardidos pela peculiar poluição londrina onde o fumo se consubstancia por meio de um nevoeiro absolutamente intragável. Num inglês vulgarmente fluente, ouviu a indicação de que o dono da frota de táxis se encontrava nos escritórios do edifício ao lado. Com passo ligeiro e orgulhoso, bateu à porta onde, sem pompas de bom gosto, se encontrava a placa com a identificação do proprietário.
Foi o próprio a franquear-lhe o acesso pensando, em razão dos ousados contornos denunciados pelo vidro fosco, tratar-se de outro alguém que não a enamorada Cristiana. Ficou lívido, empedernido, com uma plastia perra de reacção. Deveria era estar contente. Atrapalhado e incompreensivelmente descomposto, quase não se lembrara de a cumprimentar. Estava notoriamente desconfortável com o sucedido. Mal balbuciava umas repetidas sílabas sem nexo. Não era o mesmo homem afável, de fino trato, exigente nos vincos do seu prezado vestuário que se mostrava irado sempre que as suas gravatas, criteriosamente escolhidas para cada dia da semana, não eram logo colocadas no cavalete para serem vigorosamente envergadas ao amanhecer. Não. Esta era outra pessoa, outro personagem.
Antes mesmo de inquiri-lo sobre as razões de tamanho ataranto, Cristiana vê entrar de rompante uma mulher de silhueta voluptuosa, a roçar a tonta inocência de um camuflado fluorescente em noite de Halloween. Os três estavam decididamente surpresos como que a perguntarem-se, num silêncio irresoluto, “quem é quem?”
Ele apresenta a berrante intrusa como sua nova assessora. Instado pelas circunstâncias a apresentar a mulher, ousa anunciá-la como “uma amiga de Portugal”. Boquiaberta, Cristiana não precisa de muito mais para perceber o que realmente se estava a passar. Ele, que ainda assim não esboçara a mais tosca tentativa em ordem a desfazer semelhante manta de equívocos, sem jeito para a exigência moral do momento, sentencia num arrepiante tom de alívio: ”não dá mais. Acabou tudo entre nós”.
De volta ao sofá, decide também ela fazer as malas. Não leva “souvenirs” materiais de uma fraude sem perdão. Apesar de tolhida pelos danos de uma lança que só atravessa os que acreditam, conclui ficar com o melhor do pior deste seu curto mas cinzento mosaico de vida: Joana, a filhota de três anos, que não será a recordação de nada mas um doce sinal de vida e generosidade.
Em boa verdade, naquele S. João, por uma questão de honrada sobrevivência, nasceu uma mulher que tudo fará para um dia voltar a ser feliz porque lhe está nas entranhas a faculdade de fazer a felicidade de alguém.
José Manuel Alho
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Comentários
Quando é que este homem escreve um livro?!
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