No início de novo ano lectivo, uma reflexão...


 


Professores:

- De entertainers a engolidores de hipopótamos adultos?!

Poucas profissões, em todo o mundo, gozam do prestígio junto da sociedade quanto a dos professores. Transmitir conhecimento(s), a crianças ou adultos, é tido muito justamente como um sacerdócio pela maioria dos docentes. À semelhança do também ocorrido com toda a sociedade, o trabalho realizado pelos professores sofreu profundas alterações nos últimos anos. As origens das transformações estão na própria evolução vivida no mundo. E não apenas tecnológica, mas também de comportamento, pedagógica e até mesmo na administração do ensino.

Estas alterações obrigaram os professores a encarar a própria profissão de maneira diferente.

De algum modo, e apesar das investidas governamentais, os grandes agentes de transformação continuam a ser os docentes. A rotina vivida dentro da sala de aula tem levado aqueles a repensar os métodos, as práticas pedagógicas, os instrumentos de ensino, o uso das tecnologias e o relacionamento com os alunos. As mudanças acontecem, essencialmente, pela insatisfação do professor. No entanto, ninguém mais detém o saber. Cada vez mais o conhecimento é partilhado.

Para muitos, contudo, nos tempos que correm, não se espera do professor que tenha uma prática pedagogicamente correcta, que domine bem os conteúdos temáticos da área que lecciona, ou que tenha uma formação geral abrangente, em resumo, que seja aquilo que antigamente se considerava por bom professor ou professor competente.

Na minha caixa de correio electrónico, muitos profissionais da educação veicularam o que entendem ser as expectativas actuais sobre o que representará a figura do Professor e suas funções. Eis um apanhado despretensioso de considerandos. Hoje em dia, o que se esperará então do professor é que:


  • » Tenha uma enorme capacidade para engolir hipopótamos adultos;

  • Seja um bom entertainer de crianças e jovens amuados por não terem um telemóvel de última geração ou pelos pais não terem “papel” para a mais recente versão da “PlayStation”;

  • Seja o bombo da festa de alunos malcriados ou indisciplinados;

  • Tenha muita dose de paciência para “encaixar” as aleivosias de certos alunos que frequentam a escola como extensão do salão de jogos lá do bairro;

  • Invente muito tempo livre e ganhe o gosto pela leitura de legislação que em breve atingirá a perfeição de regular o ritmo da inspiração e da expiração, e se habitue a ter prazer no preenchimento regular de documentos que ninguém mais tarde lerá;

  • Demonstre uma colossal disponibilidade para poder levar para casa os problemas do dia-a-dia da escola e, se possível, indisponha, com irritante facilidade, os seus familiares com os mesmos problemas, preferencialmente à hora das refeições;

  • Esteja sempre de cara alegre - com um sorriso pateta de quem sabe ser carne para o espeto de superiores interesses - para os seus inocentes alunos que, desgraçados, não têm culpa nenhuma do gigantesco stress causado pela exigente missão que se resume em activar simultaneamente vários neurónios em ordem a acomodarem os conteúdos programáticos debitados pelos professores.

  • Disponibilizar sempre algum tempo adicional para dar apoio aos alunos que, desafortunados, não puderam estudar as matérias em tempo útil pois a pressão da sociedade chega a ser desumana. São as famosas “causas sociais” a ditarem regras…

  • Aceite, sem resiliência, ouvir as queixinhas que os encarregados de educação sobre importantes matérias não resolvidas dentro de casa, não vão os pais dar uma nota negativa aos “malandros dos professores”…

  • Esteja sempre disponível para dar mais uma oportunidade àqueles alunos que, ao fim de 257 tentativas, não conseguiram atingir o sacrossanto sucesso educativo;

  • Esteja ajeitado para, sem retorquir, levar um par de bofetadas de algum aluno ou de algum encarregado de educação, que não gostar da avaliação feita ao “menino d’ouro”».


A bem da verdade, importa reconhecer que grassa um notório descontentamento entre os que resistem e sobrevivem para se manterem fiéis às reais funções docentes. Estes considerandos que acabei de reproduzir – forçosamente bem-humorados – dão conta de um desgaste, feito de frustração e revolta, que cumpriria levar em linha de conta para que a situação nas nossas escolas não persista um barril de pólvora à beira da explosão. Mas isto é só o Alho  a falar…

José Manuel Alho

 

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