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Sou da Parvónia e isso me envaidece
Neste rectângulo à beira-mar frustrado, parece, mais do que nunca, óbvia esta atmosfera depressiva que a todos, de algum modo, tocou. Digamos que o cidadão anónimo português experimenta hoje perplexidades, feitas de revolta e indignação, chegando ao ponto de ter vergonha de sobre elas falar tal é o embaraço ao constatar a falência de valores e princípios até há pouco tidos por consensualmente garantidos.
Mas, na verdade, a democracia, sendo o menos imperfeito dos regimes, não tem por predicado a “garantismo”. Para alguns, tal evidência, longe de ser uma virtude, será uma fragilidade perversamente útil.
Independentemente do posicionamento ideológico de cada um, é notória uma desilusão transversal, que vai muito além da avaliação da acção político-partidária que em dado momento se possa fazer, que se prenderá, essencialmente, com a petulante facilidade que actores responsáveis – a maioria deles sem ontem - mascaram a verdade, desonram compromissos assumidos e infligem, de forma continuadamente autista, severas injustiças. Nunca como agora as desigualdades sociais foram tão acentuadas, notadas e sentidas. Mais do que nunca, o cliché de que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres ganhou cerrada propriedade. Padecemos, nesta jovem democracia, do primado da “cunhocracia”, da rastejante e tentacular actuação da Dona Maria da Cunha. Só neste país, o importante não é ser Ministro. Proveitoso é tê-lo sido. Quem denuncia, por exemplo, a existência de corrupção e de outras actividades ilícitas é acusado de populista. E os outros?! Como se chamarão os outros que (aparentemente) nada dizem ou fazem, ou que afiançam a normalidade da situação actual?
Em face deste cenário, traçado por meio de contornos muito sumários – não vá o leitor enfadar-se ainda mais - cumpre notar os perigos que enfrentamos. Já foi dito e escrito que os riscos de uma séria explosão social em Portugal aumentaram exponencialmente nos últimos anos. Estamos num crescendo de desilusão, alimentado por uma sucessão contraproducente de escândalos e tiques autoritaristas, que vão enervando a arraia-miúda. Existe a apologia do sacrifício, decretada há demasiado tempo sem sinais tangíveis de retorno. As pessoas irritam-se cada vez mais com qualquer logro na Justiça, na Saúde, na Segurança Social, na Educação e o rastilho está lançado. Haja uma faísca…
Entretanto, o país, crescentemente molestado, vai (re)definindo as suas fronteiras sociais. Sem dificuldades económicas ou materiais, vai prosperando o território da “Porreirice”, cujo florescimento, ocasionalmente despudorado, parece não conhecer obstáculos nem limites. Bem pelo contrário. Ao invés, a Parvónia vai alastrando, não por opção nem pela ambição de se tornar um condomínio fechado, mas porque é graças a si que tudo se paga, assegura e cumpre, (ainda) à luz de princípios legais e valores morais. Daí que na Parvónia o vocabulário – com assinalável força impositiva - não seja muito rico ou diversificado. Ainda assim, erradicaram-se vocábulos como “Taxa”, “Imposto” e “Aluguer”, entre outros, que foram substituídos por expressões mais eruditas, socialmente inocentes mas financeiramente eficazes, como as que a seguir se enunciam a título de mera ilustração:
- “Disponibilidade de Serviço”;
- “Tarifa de Disponibilidade de Água”.
- “Tarifa de Disponibilidade de Saneamento”.
- “Tarifa de Utilização de Saneamento”.
- “Tarifa de Resíduos Sólidos Urbanos”.
- “Potência Contratada”.
Apesar de um estranho sonho que tive recentemente, onde a presunção de ter um Principado acarretaria algumas medidas porventura social e economicamente justas, a verdade, no esplendor da sua crueza, projectou-me, sem apelo nem agravo, para a realidade. E é nela que me encontro. Não por opção, mas por dever. Um imperativo de consciência impele-me – pasme-se! – a escolher viver deste lado do país, na Parvónia. O meu travesseiro, de proveniência mui nobre e por natureza muito dado a achaques de honestidade, não me deixaria dormir…
Caro visitante, sou da Parvónia e, acredite, isso me envaidece.
Mas, isto está claro, é só o Alho a falar…
José Manuel Alho
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