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“A partilha de experiências e de saberes entre colegas é, mais do que valiosa, premente”
Entrevista conduzida por Ana Beatriz Gonçalves Costa
Mudando de conceito, quando pensa em Poder que termos é que associa a esta palavra?
Autoridade, Autonomia e Responsabilidade. Contudo, não deixa de ser verdade que muitos afiançam que actualmente a autoridade do professor estará pela hora da morte. O professor é hoje um alvo demasiado fácil; está constantemente num espeto que vai “dourando“ ao sabor dos interesses e conveniências de parte da opinião pública. Muito recentemente, no entendimento de muitos docentes, a classe docente foi alvo de uma campanha inédita de desacreditação, que em alguns momentos pareceu animada por quem deveria porventura ter poupado e protegido tão relevante grupo profissional. Acho que, no caso da autoridade e do poder do professor, não os vejo necessariamente com aquela carga negativa e pejorativa decorrente do antigo mestre-escola. Acho que o professor tem que ter autoridade, tem que ter poder. Um exercício ponderado, sensato e lúcido do poder. Mas também não podemos passar para a ausência de autoridade, porque se há muitas décadas atrás o professor do 1.º Ciclo era o expoente máximo do autoritarismo - e aí estava toda a carga negativa do termo –agora teremos eventualmente passado para uma fase de excessivo relaxamento que daqui a cinco, sete, oito, dez anos vai ser estudado, por todas as universidades a nível europeu, como “o caso português”. Muitos garantem que será estudado na perspectiva de “não façam o que os portugueses fizeram aos seus professores!”.
E de que forma é que o professor pode exercer esse poder?
Há dois tipos de autoridade: aquela que qualquer grande actor de teatro conquista inteligentemente, recorrendo ao carisma, à psicologia e ao tacto emocional; e a outra, vincadamente impositiva, do género “cá estou eu. Meus amigos, isto aqui é a minha quinta e eu faço, desfaço, monto, desmonto, destruo, resumindo, é comer e calar!” Aliás, muitos pais foram assim ensinados e dela se socorrem quando animados a citar boas práticas pedagógicas do passado…
Durante a entrevista estiveram presentes dois conceitos: avaliação e poder. Estabelece alguma relação entre eles?
Mesmo que quisesse ser politicamente correcto, tenho que reconhecer que existe. Acho que sempre que alguém tem responsabilidade em algum sector, seja na vida política, familiar, associativa ou social, terá sempre algum poder. Nesta óptica, haverá uma relação evidente entre a responsabilidade de avaliar e o poder que lhe é inerente. Nuns casos, poderá ser mais acentuada, com contornos mais nítidos e mais grossos; noutros pode estar ou ser esbatida – até dessacralizada - de uma forma lúcida e sensata.
E essa relação terá a ver também com o tipo de poder que o professor exerce?
A autoridade dos professores pode ser utilizada como um trunfo. Outras vezes serve para mascarar problemas de personalidade ou até limitações relacionais. Mas todos nós temos maneiras diferentes de lidar com as nossas insuficiências. Há quem tente, estando à beira de um abismo, dar um passo em frente, isto é, usa a autoridade, precisa de a lembrar e de a fazer sentir constantemente. E há outros que tentam lidar com as suas limitações tornando-as, na medida do possível, em estímulos. A partilha de experiências e de saberes entre colegas é, mais do que valiosa, premente. E há coisas tão ricas, por exemplo, ao nível dos Conselhos de Ano onde se aprende tanto, dando e recebendo! Se em cada escola existirem canais de ligação entre “as ilhas do arquipélago”, tudo tenderá a melhorar. Sabe, os professores são pessoas muito carentes, têm uma auto-estima muito baixa; e, se calhar, têm razões para isso. As pessoas que vêem o sistema de fora dizem-me que notam os professores em baixo, que os sentem pessoas tristes e cinzentas…
Se calhar, é chegado o tempo de interromper uma certa apetência legislativa, deixando – insisto - aos professores a capacidade e o tempo para trabalharem, para reflectirem sobre a sua prática pedagógica, para serem orientados nessa reflexão, através de acções de formação, até para que as estruturas intermédias, que são vincadamente de cariz pedagógico, não se transformem em serviçosde cariz eminentemente administrativo.
E em relação ao Estatuto do Aluno que recentemente foi modificado, tem alguma opinião formada sobre este assunto?
O novo Estatuto do Aluno contém reformulações consequentes e encerrará algumas carências que, estou certo, vamos ter que corrigir daqui a um ano ou dois anos…Creio e defendo o princípio da Assiduidade com globalmente estruturante. No mais, partilho da apreensão dos que garantem que o sistema educativo português estará há demasiado tempo direccionado, quase que na sua essência, para as crianças com dificuldades de aprendizagem. A escola pública tem de apresentar projectos para os bons alunos e de possuir recursos para dar boas ofertas aos alunos de excelência. E daí o propalado empobrecimento do ensino público, porque os bons alunos, asseveram os sociólogos da Educação, provirão maioritariamente de agregados familiares da classe média-alta ou alta, não vendo no ensino público a exigência esperada para exponenciar as suas capacidades e competências. Ocorre então o êxodo para o ensino privado. Como é que isto se resolve? Temos que começar a resolver. Vai demorar tempo, mas não podemos desistir da excelência.
A última questão que lhe faço tem a ver com as recentes alterações ao regime de gestão e de autonomia das escolas. É uma solução de e com futuro?
Antes de mais, pecará quando muito por tardia. É um modelo que me agrada bem mais que o anterior. Entendo que se poderia ter ido mais longe, mormente na limitação de mandatos e no capítulo da gestão financeira. Creio que não seria descabida uma solução bicéfala: um director pedagógico – um professor; e um director financeiro – necessariamente alguém formado em contabilidade, gestão e fiscalidade, mesmo ao nível do contencioso. Para mim, é importante separar os professores da gestão financeira. “Não tocar em dinheiro” deve ser a máxima.
Há sempre pessoas maldosas e o modelo presta-se a múltiplas especulações a que cumpre pôr termo. Quando, por exemplo, se diz que um dos motivos para muitos docentes quererem integrar um órgão de gestão ou pretenderem, durante largo tempo, ali permanecer, são os privilégios materiais, tenho que rejeitar liminarmente tal lógica de pensamento. Não creio que ninguém estará num Conselho Executivo para usufruir – se é que existem – de cartões de uma qualquer gasolineira para abastecimentos ilimitados, para ter gás gratuito nas suas moradias ou para ganhar outros favores que não cabem no meu quadro de valores. Quem tem, em circunstâncias tão adversas, assumido a gestão das escolas só o terá feito - e estou firmemente convencido disso – por entender reunir os atributos pessoais e profissionais que os habilitaram a fazer a diferença. De outro modo, teríamos que chamar a polícia… (risos)
FIM
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Comentários
concordo o a maioria das coisas que foram ditas. A parte dos executivos é que vale a pena falar. Estive numa associação de pais e vi o que se passava. um dos indivíduos que era do executivo tinh mesmo abastecimentos grátis. e ainda está no executivo. o professor entrevistado cai em contradição quando diz que os proofessores não podem tocar em dinheiro e depois diz não acrediar em colegas que se aproveitam dos cargos. Ele está é a defender os seus colegas. Á muitos agrupamentos onde a polícia devia mesmo entrar porque fazem-se muitas negociatas. Quem anda lá dentro sabe muito bem que é assim
ResponderEliminarComo mãe e encarregada de educação do Agrupamento de Escolas de Revelhe em Fafe, só tenho a dizer bem das pessoas que estão à frente do agrupamento. São deidcados e sempre prontos para modernizar as instalações. Mas sei que nem todos serão assim. Muita culpa têm as direcções regionais que permitem os abusos que existem nas escolas como nas fábricas.
ResponderEliminarAs direcções regionais estão para fazer fretes. os clientes do partido do governo estão sempre acima de qualquer problema. Ainda hoje estou para perceber a utilidade de uma direcção regional, além de ser uma delegação regional do PS
ResponderEliminarConcorda totalmente que os professores tenham autoridade e poder. Ainda ontem fui buscar o meu note ao Jardim e vi coisas incríveis. Crianças de 4 e 5 anos cheias de má educação. Os pais até se riam e apoiavam os meninos. Onde vamos nós parar com esta canalha que sabe dizer asneiras mas ainda mama no biberão? Que pais são estes?
ResponderEliminarAlguém me pode dizer quem e como se valia uma direcção regional de educação? Ao que sei, nem a Inspecção lhes toca!
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