Trémulo, inibe-se de mostrar uma dentição feita de espaços e de um consentido musgo

 


   Ser gente ao luar

 

 

 

Xavier Junqueira tem agora 35 anos. Prostrado no lancil de uma concorrida calçada, cravada numa cidade inundada de vultos inquietos, lembra o quarto que mantinha, com exemplar brio, quando os 14 anos de idade ainda lhe permitiam ter o peluche oferecido pela madrinha. Viaja no tempo. Recorda os persistentes mas agora tontos conselhos do mãe: ”não fales com pessoas que bebem ou fumem! Essa gente só traz desgraças...”

Rumo ao passado, os seus olhos ganham um brilho menineiro quando é tocado pelo cheiro da escola. Foi desde cedo acompanhado por um frustrado explicador, que à noitinha o ajudava a perceber o emaranhado de frases e gravuras esguichados pelos livros. Lembra, com nostalgia, a pasteleira (vulgo bicicleta) deixada pelo avô paterno em que se fazia transportar para, fizesse chuva ou sol, chegar à casa do senhor Afonso, o “descodificador de livros”.

Mais tarde, e porque os pais tinham horários desencontrados na fábrica, o imperturbável explicador decidiu, num rasgo de imprevista humanidade, permitir que Xavier almoçasse em sua casa para, “ao menos, garantir ao miúdo uma refeição quente”. Apesar de agradecidos, os pais nunca souberam da mágoa infligida ao seu filho sob a forma de humilhação diária: a sisuda família de acolhimento almoçava na sala enquanto Xavier comia, sozinho, na cozinha. Se precisasse de um guardanapo de papel ou de mais um copinho de água, tinha de berrar, em jeito de rogo desesperado, por uma sempre tardia atenção.

Porque não chegou a ter notas suficientemente altas, o clã Junqueira não enjeitou o ensejo de lhe impor o jugo da frustração. Não seria com ele que passariam a ter finalmente “um doutor na família”. Supremo desgosto! Fizeram-no sentir a mais. Foi tratado como um pária, “uma lesma sem futuro”- diziam. Não resistiu. Cedeu a um desgosto que não chegou a ser realmente seu mas que o esgaçou sem apelo nem agravo.

Entregue à rua, as suas prioridades passam hoje por descobrir bons nacos de papelão, aceder ao chocolate quente dos voluntários da urbe ou “herdar” roçados cobertores que já cobriram camas feitas de memória curta. Nos bancos dos jardins, forrados com folhas secas, também elas perdidas e caídas, encontra o aconchego que logra igualmente alcançar perto dos átrios dos grandes prédios ou de hospitais indiferentes.

Afastado pelos olhares acelerados dos que têm medo de se reverem no infortúnio dos outros - não vá ser contagioso... - aprecia o ocaso da claridade. Caiu a noite e pela cidade ressoa uma desgarrada sinfonia de sirenes onde só ouvidos experimentados destrinçam as ambulância das viaturas policiais. De cigarro na mão esquerda, preso entre dois dedos amarelecidos com unhas encardidas pelo tabaco, sobressaem exóticas pulseiras que vem acumulando neste degredo sem carcereiro visível. Na face, a pela esticada realça um rosto encovado pelas recentes e picadas agruras. Trémulo, inibe-se de mostrar uma dentição feita de espaços e de um consentido musgo entranhado até ao tutano das gengivas.

Agora vai ter a sorte de dormir. O sono é um analgésico barato mas ainda assim eficaz. Acaba de passar uma daquelas ambulâncias amarelas que habitualmente testemunham os derradeiros suspiros de outros congéneres. Regressou um estranho mas compreensível silêncio. Afinal, os monstros de betão também adormecem.

Ao luar, Xavier experimenta o privilégio de sonhar. Sonhar faz-nos sentir gente, gente que sente. Apesar da fragilidade do papelão que o ampara, ironicamente inscrita por uma qualquer marca de frigoríficos, o malogrado ex-futuro doutor recusa hipotecar a direito de se sentir gente como... nós.

José Manuel Alho

 

 

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