Tanto arrojo para acabar num banco na estação dos caminhos-de-ferro?! Não tem nem quer apanhar qualquer comboio. Ali está o retrato da sua vida. Uma vez mais, sem destino.

Um dia na cabeça dele


 



 


 


7.00 Horas. O ensonado Freitas abre oficialmente as portas do café “Entre Nós”. A equipa da empresa que assegura a limpeza do estabelecimento acabara de sair. O fresco e desinfectado cheiro do lava-tudo perfumado dava o tom para mais um amanhecer em que, sem excepção, cabe ao Tó Pereira abrir as hostilidades com o previsível galão, acompanhado do benfazejo pão com manteiga. “O rapaz pensa que é patrão. Lá por ganhar umas massas como electricista recém estabelecido, fala e caminha com a segurança dos manientos…” – pensa, sem cerimónia, o nosso amigo Freitas, ainda mal refeito de uma noite consumida em claro. O pastor alemão do vizinho não o deixa dormir há semanas, exasperando-o ao ponto de assumir, com a cumplicidade que só dispensa aos botões do seu bem posto colete negro, a profecia velada de “um dia destes, ainda lhe meto na gamela uns pozinhos da minha avó!…”

8.12 Horas. Chegam, sempre pela mesma ordem, os clientes do costume. A menina do Cartório Notarial – “aquelas meias ficam-lhe tão bem…” – o senhor Amândio, um dos mais conhecidos e respeitados empregados bancários da cidade; a D. Isabel, sempre com pressa para levar os miúdos para o colégio e, com intransmissível vulgaridade, o “par de teteias” formado pela indomável dupla «Alcina & Idalina». Elas são as “prendas” que atendem meio-mundo nos balcões dos correios, responsáveis únicas pelas intermináveis filas que conferem às pedras da calçada nova e recorrente utilidade. “Já faltou mais para as regar com café! Admite-se que tenha esperado hora e meia para levantar uma encomenda?!”, resmunga, sem balbuciar qualquer zunido digno desse nome, o diligente mas calado Freitas.

Ele tomou conta do negócio que sempre foi do sogro. A vida que leva no “Entre Nós” nunca constou dos seus planos de vida, mesmo quando gizava, num misto de aventura e rebeldia, formas e meios de fugir à guerra no ultramar. O filho, que o cunhado, por ser também padrinho, insistiu, a bem da tradição familiar, baptizar de Adélio Joaquim – “que raio de nome para o miúdo!” – está há seis anos para concluir a licenciatura em Engenharia do Ambiente. Não há semana que não telefone, a pretexto disto ou daquilo, para pedir mais uns cobres ao “velho”. Férias nunca soube o que era. Viajar não parece estar nas suas conjecturas para o futuro próximo. Está, simplesmente, cansado do presente a que chegou a sua vida. Dilacera-se porque interiormente acumula-se a irónica desilusão com a vontade de, sem mais demoras, explodir. Dizer e fazer o que lhe desse na gana era a sua maior ambição imediata. Contudo, resigna-se. “Iriam pensar que me passei de vez! Tenho um negócio. Não me posso dar a essas maluquices!”

Às dez horas chegará a sua mulher, a incansável Elisabete, que já adiantou tudo em casa, até a “janta”. Hoje ele sente que tem de sair. Vai pedir à parceira de muitas insónias que segure o barco enquanto finge que terá de ir ao banco tratar de umas papeladas. Chegada a horinha, despede-se recorrendo assaz determinado à protecção de um simples casaco, que o descaracteriza. Por momentos, também ele vai pensar e sentir que não é aquilo em que se tornou. Na rua, até pode acontecer que não o reconheçam como o “Freitas do café”. Afinal, para quê esta fuga? Freitas, aonde é a ida?

Tanto arrojo para acabar num banco na estação dos caminhos-de-ferro?! Não tem nem quer apanhar qualquer comboio. Ali está o retrato da sua vida. Uma vez mais, sem destino. Despretensioso, pretende apenas estar só na grande cidade. Não ter que agradar ou satisfazer os desejos de terceiros foi a motivação para tamanha ousadia. De mãos nos bolsos, aprecia a gente que sai e entra das carruagens. Alguns, com o rosto colado nos vidros, alheados e engolidos pela rotina, parecem não olhar nem ver ninguém. “Gente tão triste!” – remata, atordoado, este nosso “sociólogo de estação”. Descobrira não estar só, sentira não ser “um anormal” e, por momentos, orgulhou-se do muito pouco que tem.

Regressado ao “Entre Nós”, o homem estava transfigurado. Entrou sorridente, gracejou com o fornecedor dos refrigerantes e beliscou a entretanto corada Elisabete. De então em diante, decidiu tocar as pessoas com os olhos. A cada momento, em cada gesto, cumprimentar os clientes com um sorriso no olhar assumira o alto estatuto de “norma da casa”. Teria ele descoberto como ser feliz? Será que optou por, entre nós, ser diferente? Freitas, o que é que te deu?...

 

José Manuel Alho

 

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