A esmagadora maioria das pessoas com quem nos vamos cruzando revelar-se-á excepcionalmente propensa a incluir-se numa seriação que não contempla mais de três categorias: os Heróis, as Vítimas e os Outros.

Os heróis, as Vítimas


e os Outros


 

Ainda que existam casos que desafiem a lógica, condição e atributo necessariamente estruturantes, todos nós temos vida própria. Em função das circunstâncias, ninguém será, em rigor, bom nem mau. Seremos todos, principalmente, conforme. Por isso, a vida que nos vão impondo tende a desumanizar as relações, os afectos e as emoções. Tudo parece ou demasiadamente plástico ou inesperadamente animalesco. Daí que tudo pareça definir-se com estranha nitidez. Progressivamente, a esmagadora maioria das pessoas com quem nos vamos cruzando revelar-se-á excepcionalmente propensa a incluir-se numa seriação que não contempla mais de três categorias: os Heróis, as Vítimas e os Outros.

Os HERÓIS nasceram para serem notados. Ainda que elogio em boca própria configure vitupério, não regateiam a si mesmos rasgados encómios. Assumindo o risco de serem mal interpretados, fingem que não sabem o verdadeiro significado da presunção e da vaidade ocas. Consomem as suas programadas horas de solidão a perpetrarem sorrateiras estratégias que lhes garantam a atenção, desejavelmente sob a forma de admiração, dos que os rodeiam, gente convenientemente incauta, com pouca tarimba, que revela dificuldade em destrinçar um boi de uma vaca. Invariavelmente, estes “heróis”não se cansam de contar histórias que exaltam as suas singulares capacidades, reveladas em momentos de inimaginável tensão, onde são, mesmo que à força, a figura. Os seus relatos celebram a coragem, o altruísmo e a visão de um líder na verdadeira acepção do termo. Heróis solitários, cujos comparsas de aventura ninguém conhece – “estes” feitos heróicos pecam sempre por não terem testemunhas vivas ou contactáveis… – são as personagens que denunciam um trajecto de vida repleto de duplicidade(s), mentira, azelhice, inveja, sórdida avareza…

Sempre gostaram de parecer o que não são. Hão-de teimar sempre passar-se por aquilo que nunca chegarão a ser. Distinguem-se pela facilidade e frequência com que se contradizem. Só em desespero de causa, e depois de constatada a inexistência de melhor alternativa, que os empurram para a humilhação pura e dura, aceitam ser vítimas. Podem estar atolados em poços fecais que ainda assim serão sempre os últimos a reconhecê-lo.

As VÍTIMAS carregam o pesado fardo de uma herança genética caracterizada por incompreensíveis orientações. Para elas, o sofrimento estará longe de ser purificador. Em boa verdade, gostam, simplesmente, de sofrer. Sofrem em casa, com a família, no trabalho, no futebol e choram compulsivamente em salas de espera, repartições de finanças, secções de obras, mercearias e num qualquer gabinete bancário de concessão de crédito pessoal. Para elas, a vida é uma pena terrena que têm de cumprir para remissão do Mundo. À sua maneira, têm uma missão que lhes foi confiada. Interpretam, até às últimas consequências, a máxima popular “quem não chora, não mama”. Por comparação, e porque o seu estilo é menos fanfarrão, conseguem ser mais “espertas” que os HERÓIS. Mais ardilosas, alimentam, com sensata discrição, uma ambição pessoal que surpreende os incrédulos. Sobressaem pelo prazer intenso que experimentam quando sentem que delas têm pena. Em diferentes contextos, movem-se com assinalável eficácia não olhando a meios para atingir fins. Não se guiam por valores. Distinguem-se pelo elevado número de embalagens de lenços de papel com que iniciam o seu dia e pela simpatia que logo dispensam aos que, sem reservas, concluem:”é uma coitadinh(o)a!”

Os OUTROS comportam aquela gente simples, que, por mais que se esforce, não consegue ser o que não é. Usualmente genuínos, fazem por conciliar a ambição, natural e saudável, com o respeito pelos outros. Facilmente, são rotulados de “ranhosos”, “vilões” e “maus” por não se demitirem de pensar pela sua cabeça, mesmo que tal ousadia signifique contrariar maiorias há muito dominantes. Distinguem-se por serem difíceis de encontrar…

 

José Manuel Alho

 

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