É por eles que escrevo pois não poderia ter meio e oportunidade mais nobres para, socorrendo-me da palavra escrita, ser conscientemente solidário.

 


É meu dever. É minha obrigação.


Correndo o risco – ainda que meritoriamente suportável – de ser interpretado com vulgar indiferença, aqui estou a indignar-me com este país de pessoas tristes.

Num ano repleto de actos eleitorais, onde os desmandos desavergonhados de políticos e seus aparelhos já começaram a ditar cartas, cumpre (sempre) lembrar os mais fragilizados, aqueles que, não sendo doutores ou detentores de pomposo apelido, são usualmente espezinhados pelos concidadãos mandatados para curar do superior interesse colectivo.

Neste país até agora governado por sanguessugas ardilosamente inimputáveis - que fizeram escola sacralizando a máxima “o importante não é ser ministro. Importante é tê-lo sido…” - vemo-nos presentemente confrontados com o mais preocupante cenário de desgraça generalizada. Até se conhecerem os resultados das votações, tudo está (e continuará) camuflado sob efeito de analgésicos com termo certo. Pelo que se vai ouvindo e lendo, parece garantido que a situação será bem mais grave e complicada do que o alguma vez imaginado. Enquanto uns se vão entretendo com a “papa Maizena”, as “campanhas negras”, "as Marinhas Grandes de canto e esquina" e outros dislates terceiro-mundistas, uma minoria intelectualmente sã vai indagando: “e como vai ser em 2010? E em 2011?!”

Não creio que baste ressuscitar um “bloco” dito de “central”. É minha convicção de que entretanto teremos atingido a irreversibilidade de um governo de salvação nacional. Exagero? Pessimismo? Quem viver, verá.

Mas é com os mais vulneráveis que, como em cima afiancei, me desassossego. Apesar desta agenda política desgarrada da vida das pessoas, que decorre de uma galopante bolha ocultadora da realidade, existem milhões de portugueses atormentados pela ausência de saídas e oportunidades. Inquieta-me os que agora começaram a sua agonia no desemprego; dos que são atormentados pelo pensamento da sua família na miséria; dos que têm de renunciar aos seus projectos mais queridos para o futuro; dos doentes que gritam e choram de dor; dos que não podem curar-se por falta de meios; dos que têm de estar imóveis; dos que deviam estar deitados mas que a necessidade obriga a trabalhar; dos que buscam em vão na sua cama uma posição menos dolorosa; dos que passam noites intermináveis sem poder dormir, enfim, dos que se revoltam e maldizem a vida.

É por eles que escrevo pois não poderia ter meio e oportunidade mais nobres para, socorrendo-me da palavra escrita, ser conscientemente solidário. Sinto ser meu dever. É minha obrigação.

José Manuel Alho

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