Começaram os trabalhos para o novo pavimento da Rua da Senhora do Socorro

 


Eu e o Jarbas, no meu Principado


Antes de atingir as 10 000 visitas a este blog, tinha por certo cinco leitores/visitantes: eu, a minha mulher, o meu pai, a minha mãe e a filhota - esta última no âmbito do processo de consolidação da aprendizagem da leitura. Dizia ela, ao fim dos primeiros minutos: “até consegues dizer umas piadas”. Tendo dado o seu melhor, dei cinco €uros à miúda. Fiquei orgulhoso de mim mesmo, tal como o guardião Ricardo, hoje exilado em Espanha, tornei-me, naqueles breves instantes, o homem mais feliz da minha vida.

Longe de mim imaginar tão pronto impacto. Imagine-se que, no cruzamento existente junto à imagem de S. Judas Tadeu, foram, em poucos dias, pintadas as passadeiras para os peões. Presunçosamente, concluí: ”fizeram isto porque decerto leram o meu post!” Embevecido, deixei-me inebriar por este súbito poder e, num fim de tarde cansado pelas circunstâncias de um professor do ensino público em Portugal, cedi ao sono. E ao sonho.

Era rico. Não me perguntem como nem porquê. Não interessa - são sempre uns caracteres que se poupam. Vivia (ainda) na Senhora do Socorro. O povo, essa poderosa massa anónima, a quem a razão nunca falta, delirava com meus os predicados intelectuais, com a visão futurista das minhas opções ao ponto de ter visto em mim a referência há muito esperada para um futuro historicamente ditoso e venturoso. Determinados, convictos e inspirados pelo meu exemplo arrojado, empreenderam um processo independentista que, sem sangue, nem suor, nem tão pouco uma hora de sono perdida, culminaria da fundação do Principado da Senhora do Socorro. Finalmente, um principado em Albergaria!

Sem controvérsia ou a mínima hesitação, fundou-se a dinastia Borrabotas, que eu, do alto da minha majestosa existência, encimaria para a posteridade. Deram-me um Jarbas só para mim. Um diligente mas circunspecto serviçal para as minhas “piquenas” obrigações institucionais, absolutamente delegáveis. A certa altura do sonho, dou por mim a velejar o meu iate junto às novas urbanizações, momentaneamente submersas pelo diligente servo com quem mantinha uma indigente conversação.

- Jarbas, estou a pensar - depois de pavimentar a estrada, de regularizar a recolha do lixo e de criar frondosos espaços verdes - em construir umas ciclovias até ao “Bico do Monte” para fomentar a prática desportiva em segurança e, para os caminhantes, mandarei, a cada duzentos metros, distribuir alguns bancos onde possam repousar durante os seus sadios passeios. Que achas?

- Deslumbrante. Digno de um grande visionário. Mas, Senhôor…

- Essa tua pausa é suspeita. Que disse de mal?! – inquiri perplexo.

- Nada, Senhor. Mas sabe como são os políticos. Precisaria de apoio da edilidade, pois o seu orçamento só dá para manter o seu parque automóvel, as roupas, as jóias, os SPA’s da Senhora e pouco mais…

- E então?!! – insisti num tom banzado com tão inusitado cepticismo.

- Senhôor, os políticos nunca viabilizam as ideias dos outros. Têm complexos de inferioridade e não sabem lidar com o poder que têm de forma racional. Sentiriam que os louros nunca seriam para eles. São pessoas muito sensíveis, meu Senhor. Só isso.

- Mas Jarbas, seria para o bem comum e enriqueceria o nosso Principado…

- Senhôoor, tendes razão. Mas não deveis esquecer que não podemos colocarmo-nos em cotejo directo com lugares tão distintos como Alquerubim, S. João de Loure e… Branca

- Queres tu dizer-me que nada posso fazer pelos meus súbditos só porque tenho ideias minhas, por sinal, boas para o meu povo?!... – questionei em jeito de gozo cínico.

- Não será bem assim, Senhôor. Haveria uma saída.

- Sim… e ela seria…

- Senhôor, tenderíeis de esperar pelas próximas eleições.

- Mas as ideias continuariam a ser minhas! O que mudaria afinal aos olhos desses políticos inseguros?

- Nessa altura, passariam por zelosos representantes do povo, que sempre ouviram as suas reivindicações mais profundas ao ponto de, mesmo no fim do mandato, não as terem esquecido. Seriam louvados e insistentemente aclamados pela sua generosidade. Acumulariam então votos, esse escasso afrodisíaco!

- Nunca tinha pensado nisso. Vou lucubrar sobre o assunto. Esvazia este mar. Tenho agora de tratar das minhas unhas. Chegou a Zuleika.

Acordei com a Quicas, a minha cadela, a lamber-me descontroladamente. Terá o meu sonho sido um sinal? Uma visão do futuro ou um aviso?

Não. Pareceu mais uma profecia. Mas, enfim, isto é só o Zé a falar…

José Manuel Alho

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