Lastima-se que no Hospital Infante D. Pedro não exista ainda uma Unidade de AVC, como já foi sugerido pelo Professor Doutor Victor de Oliveira, da Sociedade Portuguesa de AVC

 


Susto no Hospital de Aveiro


 

No passado dia 4 de Setembro, pelas 19.35 horas, á saída de um restaurante albergariense, a minha mulher experimentou sintomas que, mau grado a minha ignorância técnica, entendi – em boa altura – compatíveis com um AVC, acidente vascular cerebral, ou incorrectamen­te por «trombose». Em rigor, denunciava dificuldade na fala (em dizer as palavras certas ou nem as conseguir dizer), nos movimentos e alterações na visão. Queixava-se igualmente de uma sensação de formigueiro e de diminuição da força num membro superior direito, bem como dores de cabeça intensas, que se faziam sentir há alguns dias.

Sem resposta do 112, decidi, sem demoras, levá-la às Urgências do Hospital de Aveiro. Para o efeito e com o propósito de agilizar uma recepção expedita, contactei durante a viagem aquele hospital indicando os sintomas para que um médico me pudesse dar alguma indicação útil, ou simplesmente, ficar a contar com a chegada da minha mulher com um eventual AVC. Aliás, é consenso geral que um AVC deixa sequelas, que são mais ou menos graves, dependendo da veia do cérebro afectada, e do tempo que o paciente levou para ser atendido. Inclusivamente, há hoje possibilidade de tratamento que, se administrado nas primeiras três horas após o seu aparecimento, diminui em percentagem considerável as consequências que os AVC podem ter.

Em consequência, a ligação foi encaminhada para uma, médica que, depois de confirmar ser efectivamente “médica das urgências” se recusou a indentificar-se optando por desligar-me a telefone na cara pois - segundo fui posteriormente informado – estaria a minutos de acabar o seu turno. Cheguei precisamente às 19.50 horas onde a maior preocupação dos funcionários parecia prender-se quase que exclusivamente com a “inscrição”. Fiquei indignado com semelhante tipo de “prioridades”, onde aparentemente o formalismo se sobreporia ao valor supremo da VIDA, pelo que em face da minha insistência para que examinassem medicamente a minha mulher, lá aceitaram fazer-me o especial favor de a colocarem numa maca (pudera! Já mal caminhava…) e levá-la para o absurdamente exíguo gabinete de triagem onde ficou com os pés no corredor a a cabeça a rasar o monitor do computador.

No entretanto, fui brindado com a rudeza de um dos seguranças que, à semelhança de outros comparsas, pareceu sempre comportar-se como “o dono do pedaço”. Com um autoritarismo a roçar a linguagem militar perante mancebos assustados, permitiu-se agir ignorando estar perante cidadãos/utentes do SNS/contribuintes.

Na triagem, o enfermeiro (não identificado) limitou-se a recolher um conjunto de informações visando o preenchimento da usual aplicação informática. Com um à vontade que tive por impróprio a uma emergência e mesmo depois de eu lhe ter elencado os sintomas, não lhe ocorreu verificar, através de perguntas e “exercícios” simples, o estado geral neuropsicológico da minha mulher, ou seja, verificar se a paciente apresentava “problemas” ao nível linguagem, da memória, da atenção, e da coordenação motora. Poderia perguntar-lhe o nome próprio, em que ano nasceu (memória), pedir-lhe que dissesse o que sentia (verificar a linguagem), perguntar-lhe um nome de um qualquer objecto que lhe apresentasse ou dar-lhe um objecto e o paciente ter de identificá-lo com os olhos fechados (verifica a existência de agnosias); pedir à minha mulher que executasse uma determinada actividade e verificar se ele a realizava ou não (verifica a existência de apraxias). NADA. Em abono da verdade, os testes de rastreio cognitivo ou de “screening”, apesar de não permitirem fazer qualquer diagnóstico, permitem determinar, de uma maneira geral, que áreas funcionais foram afectadas. Infelizmente, nos hospitais, devido a uma multiplicidade de factores, nem sempre se fazem estes testes. Contudo, a experiência já faz com que um especialista consiga, com meia dúzia de perguntas, determinar alguns problemas funcionais. Na inexistência de um especialista, deveria educar-se e sensibilizar-se outros médicos para o fazerem. Em alguns serviços – ressalvo – do Hospital Infante D. Pedro, Epe – Aveiro, tudo parece funcionar segundo a máxima “estás por tua conta e risco”.

 

Tumor maligno com metástases?!!

Durante horas sem informações e porque “as regras são muito rígidas” por aqueles lados, aguardei na sala dos acompanhantes sem sucesso. Dirigi-me então ao balcão de informações quando a Sr.ª. D. Cristina Silva se deu ao desplante de dizer “tem que aguardar pois a sua mulher é uma verdadeira emergência”. Fiquei estupefacto. É que se existe, numa sala para acompanhantes e familiares, um serviço de informações, nunca logrei imaginar que com a minha pergunta interrompessem a abordagem clínica em curso. Não queria que deixassem de tratar a minha esposa para me darem uma simples informação. Era um “dilema” que nunca me passou pela cabeça. Num destes dias, alguém terá de dizer à Sr.ª. D. Cristina Silva que deverá evitar dar muito nas vistas quando apenas dispensa simpatia e informações a amigalhaços, familiares e/ou VIP’s.

Minutos antes da meia-noite, um jovem médico (não identificado) chamou-me para informar, muito cheio de si, mais parecendo estar a protagonizar um novo episódio da mais recente temporada da série “Serviço de Urgência”, que a minha mulher, após realização de uma TAC sem contraste, tinha “um tumor maligno com metástases”. Fiquei destroçado. A família também. De madrugada, a minha mulher era transferida para os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), onde esteve internada durante uma semana, o tempo necessário para investigar profusamente o seu caso.

Não vou aqui reproduzir os comentários feitos pelos conceituados profissionais da Neurocirurgia e da Neurologia dos HUC a pretexto do “diagnóstico” (?) feito no Hospital de Aveiro. Faço-o porque tenho pena e vergonha. Como foi possível fazer uma TAC com péssima qualidade imageológica e sem contraste para concluir, de forma tão assertiva e categórica, pela existência de “um tumor maligno com metástases”?! Na verdade, tratou-se de “uma trombose venosa cerebral”.

 

Fim da presunção de competência?

Aqui deixo os mais rasgados elogios aos HUC e seus profissionais. Trata-se de uma instituição de excelência. De igual modo, não ouso, no que ao Hospital de Aveiro diz respeito, “confundir a árvore com a floresta”. Contudo, lamento que, em resultado do grave acidente de viação de que a minha mulher foi vítima em 28 de Maio passado, não lhe fosse feita uma TAC - já que se tratava de uma poli traumatizada - para verificar da possível existência de traumatismos cranianos. Cumulativamente, lastima-se que no Hospital Infante D. Pedro não exista ainda uma Unidade de AVC, como já foi sugerido pelo Professor Doutor Victor de Oliveira, da Sociedade Portuguesa de AVC. Os tempos e os estilos de vida que (infelizmente) levamos, exigem-no. Está hoje provado que os doentes vítimas de acidente vascular cerebral têm melhores resul­tados em termos do défice resultante e com­plicações e tempo de internamento quando são tratados em áreas especificamente preparadas para isso, são as «Unidades de AVC». Trata-se de um espaço físico (uma enfermaria) onde trabalham profissionais especialmente trei­nados para estas situações e onde se aplicam procedimentos, quer de diagnóstico, quer de terapêutica de acordo com protocolos que obe­decem às recomendações científicas interna­cionais mais recentes. São também realizados, sistematicamente, exames complementares que visam um com­pleto esclarecimento da situação. Posterior­mente estes doentes serão seguidos em consul­ta externa específica.

No mais, o Hospital de Aveiro, se se revelar incapaz de, enquanto organização, corrigir e aperfeiçoar níveis de atendimento à população, obriga(rá) o cidadão comum a recorrer à Inspecção-Geral de Saúde, à Ordem do Médicos e aos Tribunais. No meu caso, lavrei Reclamação e a resposta foi um ataque pífio à minha sanidade intelectual.

Quando daqui a uns meses o processo clínico da minha mulher regressar à Neurologia do Infante D. Pedro, devo reconhecer que temo pela sua VIDA. Está reduzida a cinzas a nossa confiança naquele hospital. E isto é o pior que pode acontecer a qualquer serviço de utilidade pública. Estaremos porventura a falar do princípio do fim da presunção de competência.

José Manuel Alho

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