Ganharam o Totoloto. Têm duas moradias, avaliadas em setecentos mil euros, e três carros topo de gama. Pena é que, passados oito anos, vivam agora à conta do Estado.

 


Aqui há gato?


Ou, se calhar, nem por isso…


* Como professor e funcionário do Estado, sou todos os dias enxovalhado, amesquinhado e acusado de ter aumentado

o deficit das contas públicas.

Tenho o que mereço.

Afinal, não tenho a agilidade mental e intelectual

para sacar o melhor que este país tem para oferecer.


Em 2001, uma família portuguesa, fruto de um palpite plenamente conseguido no Totoloto, recebeu uma quantia fantástica de dinheiro – calculada em 600 mil €uros no âmbito de uma sociedade – que fez dela proprietária de um património por muitos sonhado mas por poucos gozado.

São donos de um pé-de-meia cobiçável: duas moradias, avaliadas em setecentos mil euros, e três carros topo de gama. Pena é que, passados oito anos, vivam agora à conta do Estado. Isto é: apesar das duas casas e três carros, vivem por conta do subsídio estatal e esperam por mais auxílios.

Ao que constará, a Segurança Social achará tudo legal. Argumentar-se-á que aquele agregado familiar não tem liquidez e a assistência será por isso fundamental. A cada mês caem 365,56 euros. Mãe e filho até aguardam por nova ajuda da Segurança Social. Fonte do Instituto de Segurança Social (ISS) afiançou ao jornal “Correio da Manhã” que "trata-se de um agregado desestruturado, com um quadro familiar muito complexo. Enriqueceram subitamente e não demonstraram ter as competências necessárias à gestão do património, bem como à perspectivação do seu futuro. Para além da falência da empresa que criaram, viram-se sem qualquer tipo de rendimentos líquidos, embora com património", sustentando assim a decisão de dar a esta família o Rendimento Social de Inserção (RSI).

A populaça lá do sítio, conhecedora do enredo e dos protagonistas, é que não acha piada alguma à história e criticam o tratamento estatal dado aos pobres milionários. O filho do casal, com 21 anos, respondeu ao jornalista João Carlos Malta com certeira indiferença: "Isso que as pessoas dizem não interessa, porque a Segurança Social sabe de tudo o que se passa, está lá tudo escrito". Bem, se está escrito, escrito está. Há papéis que porventura se sobreporão às evidências denunciadas pela visão experimentada e sábia do Zé Povinho…

A mamãe do menino também fica indignada com a desconfiança do povão: "Ainda estou à espera de receber, porque tenho direito. O meu filho também está à espera e as técnicas da Segurança Social já me disseram que seria beneficiado. Eu é que preferia que ele fosse trabalhar e ganhasse melhor. 190 euros não chegam para viver" - asseverou.

Contudo, um e outro admitem que o património que têm hoje será talvez mais valioso do que o prémio que ganharam em 2001. Tudo está a venda, garantem. O objectivo está definido: uma vida nova e bem longe daquele lugar.

"As duas casas que o agregado familiar possui encontram-se à venda numa imobiliária, uma delas já desde 2007. A segunda habitação, que não a residência actual, foi considerada no cálculo da prestação do RSI", afiançou a mesma fonte do ISS. Por fim, saliente-se que a matriarca requereu há três meses a pensão de invalidez, mas foi considerada apta pela junta médica. Nem tudo pode correr bem… à primeira.

Adoro este país. Como fico contente de, enquanto trabalho e pago semelhante pote de impostos, ter a convicção de estar a ajudar (estas) pessoas tão carenciadas e desvalidas!!

Além do mais, como professor e funcionário do Estado, sou todos os dias enxovalhado, amesquinhado e acusado de ter aumentado o deficit das contas públicas. Tenho o que mereço. Afinal, não tenho a agilidade mental e intelectual para sacar o melhor que este país de sonsos ou espertos tem para oferecer.

Caçando com gato ou sem ele - e porque os meus olhos cansados choram, cada vez mais, duras ironias - cresce em mim a tonta convicção de que o “burro” sou (mesmo) eu…

 

FOTO de Jorge Soares

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