No primeiro semestre, a DECO recebeu 6 mil pedidos, mas só encaminhou 1500 processos. 4500 famílias sobreendividadas não têm solução

Endividamento.


Classe média perde luxo,


emprego e soma dívidas


"A casa precisava de obras para substituir a mobília, que se foi desfazendo nos últimos 23 anos. Trocámos por mobília barata, do IKEA... Também precisámos de substituir o carro, porque o outro andou a nadar nas cheias de 2007. Faço parte de uma em milhares de famílias que padecem de um mal que nos atingiu devido a uma bola de neve de acontecimentos", escreveu Andrea Ferreira, 34 anos, na carta que enviou à DECO e a mais oito instituições bancárias e especializadas em crédito, em Março deste ano, depois de ter ficado desempregada.

Andrea é uma das 6 mil pessoas que recorreram ao Gabinete de Apoio ao Sobreendividados (GAS) durante o primeiro semestre de 2010. "Pertencemos à, quase extinta, classe média", lê-se na segunda linha da carta. E integra também o leque de 1500 processos a que o GAS deu encaminhamento. "Só foram abertos 1500. Analisamos a situação dos pedidos e verificamos se é ou não possível conseguir uma reestruturação do crédito", explica ao i Natália Nunes.

Há três anos, quando Andrea teve o primeiro filho, o marido "viu-se forçado a sair do país". Mas a situação da família não melhorou: "Foi cheio de esperança e com o coração despedaçado por deixar um filho pequeno a 8 mil quilómetros de distância. Mas a esperança foi- -se desvanecendo quando percebemos que as promessas de uma vida melhor eram vazias e que a nossa falta de dinheiro ia aumentar em vez de diminuir."

Andrea esperava o segundo filho, o marido regressou de Angola e regressaram também os créditos. Quatro meses antes - pelas contas que fez - de cessarem todas as "poupanças" que permitiam à família pagar as mensalidades do crédito, a família Ferreira recorreu às instituições credoras para tentar renegociar. "Temos créditos em quatro instituições diferentes e as quatro recusaram."

Em Janeiro de 2010, as fontes de rendimento secaram definitivamente. "Acabaram as poupanças e começaram a chover os tão famosos telefonemas de alguns credores a cobrar os valores em dívida." A maioria das famílias em situação de sobreendividamento recorre à DECO após várias tentativas falhadas de entendimento com os credores. Andrea Ferreira descreve na carta como se sentiu amedrontada com os telefonemas de uma das instituições, que ameaçava os seus "filhos de ficarem sem tecto para viver". Pedro (chamemos-lhe assim), elemento de uma das famílias que recorreram ao GAS em 2010, confessava na sua carta que o pagamento das contas atrasadas lhe tirava o sono e o deixava com vontade de abandonar tudo. "Os telefonemas das concessionárias de crédito e bancos com ameaças desnecessárias e ofensas não nos dão descanso." Contudo, apesar de as famílias acusarem os credores de falta de compreensão, as opiniões dos especialistas ouvidos pelo i são concludentes: "O primeiro passo é sempre contactar as entidades de crédito, explicar o ponto da situação e renegociar rapidamente para que a família possa acomodar-se ao novo ritmo", alerta o economista João Duque.

Assumir o problema é o grande pesadelo dos sobreendividados. "Socialmente as pessoas não querem assumir as dificuldades financeiras nem o desemprego. E assumir a perda de bem-estar é ainda mais doloroso." No gabinete de apoio do ISEG, sempre que João Duque sugere às famílias que cortem em algumas despesas "supérfluas" a primeira resposta é quase sempre igual: "Não conseguimos viver sem isso." Segundo o economista, muitas famílias "são desorganizadas" e não querem deixar a zona de conforto e admitir a nova condição. "Têm de ir ao cabeleireiro, aparecer nos jantares de amigos, fazer férias no Algarve, ter carro, telemóvel, TV Cabo... Caso contrário, não conseguem acompanhar os amigos e deixam de os ter... Esse é grande drama das pessoas."

Também Natália Nunes elege como o problema número um a dificuldade das famílias de alterarem comportamentos. "Escondem dos amigos e dos familiares por vergonha e nem sequer contam nada. O que nos dizem é que, se os vizinhos e os familiares soubessem, provavelmente assustar-se-iam." No entanto, a especialista da DECO é mais relutante quanto à situação de desemprego e assegura que o dever de assumir é apenas com a instituição bancária.

"Perdi a vergonha que tinha de ter o nome no Banco de Portugal. Afinal de contas a culpa de estar nesta situação é minha", afirma Andrea na carta. Há uma semana que está novamente empregada, no atendimento ao público na área comercial. E a família Ferreira não desistiu de negociar com os bancos. "Conseguimos um acordo com o Santander e entrámos em período de carência no crédito à habitação", conta ao i. Durante dois anos a mensalidade será apenas de 160 euros, referentes ao juros. A DECO garante que em 80% dos processos que dão entrada a resposta é positiva. "Conseguimos uma consolidação do crédito e a família consegue reequilibrar as suas finanças."

Contudo, a solução da DECO para os restantes 4500 sobreendividados (números do primeiro semestre 2010) passa pelo tribunal. "Há situações em que já não podemos fazer nada, porque quando temos conhecimento do caso, as dívidas do crédito já são muito extensas. A família pode ir a tribunal e pedir a declaração de insolvência", diz Natália Nunes, para quem o número de sobreendividados será maior no fim de 2010.

Fonte: Jornal i

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