A burocracia, os Professores e o pensamento único.

Alimentar o monstro


 


Como sabem, sou Professor. À semelhança de tantos outros colegas, sinto, desde 2005, - com a certeza de quem suporta uma dolorosa canga estupidificante - a burocracia que empobrece e desvirtua o exercício da actividade docente.


Numa apreciação mais generalizada, que toca os mais diversos domínios da sociedade portuguesa, cumpre reconhecer que o povo, nestes últimos seis anos, ficou - na interpretação mais primária e rude da expressão - menos inteligente. Em qualquer repartição ou serviço, percepcionam-se (ainda) posturas e condutas assentes no medo, no receio de ser apontado ou na patética consciência da ameaça que representa(va) ser e fazer diferente. Daí a necessidade que o poder então vigente observou quando impôs a obrigatoriedade de quase tudo uniformizar até ao limite do ridículo, de instituir grelhas e documentos excel que secassem (à nascença) a mais ténue probabilidade de alguém sair de uma tácita norma que a todos espartilhava, sem ninguém saber ao certo o que se pedia/esperava. No essencial, tratou-se de uma bem forjada tentativa de instituir o pensamento único.


Também no Ensino isso aconteceu, atingindo contornos que deviam envergonhar o país. Mas não se julgue que, com mudança (?) operada em Junho passado, o cenário conheceu a desejada transformação. Nada disso. Há gente amarrada a tiques que (sem se aperceber) tolhem a autonomia pessoal e intelectual de quem, pela força do saber de experiência feito, deveria usar da natural autoridade profissional para devolver ao sistema alguma sanidade e eficácia. Mas não. Tudo parece subsistir com penoso amorfismo.



"Daí a necessidade que o poder então vigente observou quando impôs a obrigatoriedade de quase tudo uniformizar até ao limite do ridículo, de instituir grelhas e documentos excel que secassem (à nascença) a mais ténue probabilidade de alguém sair de uma tácita norma que a todos espartilhava, sem ninguém saber ao certo o que se pedia/esperava. No essencial, tratou-se de uma bem forjada tentativa de instituir o pensamento único.



E os primeiros sinais da tutela - ao contrário do que muitos presumiram - não se afiguram animadores. Esqueceu-se a necessidade de desburocratizar a profissão docente para somente reformar o sistema de avaliação dos Professores. Muito pouco para quem assumiu compreender o desgaste provocado pela excessiva carga administrativa entretanto criada. O monstro está vivo e tende a perpetuar-se, mas, desta feita, à custa de mentalidades atávicas e acríticas.


Assim sendo - e fazendo fé nos muitos relatos que me fizeram chegar de vários pontos do país - resta percorrer esta insustentável via sacra de reuniões intermináveis, de procedimentos que nada acrescentam, enfim, sobra a degradante opção de alimentar o monstro de que tantos se queixam e que tão poucos combatem.


JMA

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