Essa triste e cinzenta gente busca somente o encanto singelo de um, ainda que breve, aplauso.

Caçadores de aplausos



 


Texto de José Manuel Alho


 


Vivemos, mais do que nunca, o tempo da palavra. Com imagem, sem imagem; com efeito, sem efeito; com drama, sem graça; com realismo, sem verdade eis a época do verbo sob as formas e os contornos permitidos pelas novas tecnologias.


 A ilusão da proximidade com a razão ou a subtil perversão da mentira convivem com a naturalidade de um espirro numa manhã de Primavera. Agora, sim. Aprecie-se o Homem no seu esplendor. No bom e no mau, ele aí está para transformar e durar.


Ao toque inicial, dou por abertas as hostilidades tendo na palma da mão o comando desta TV que abala tanto quanto vulgariza. Desfiro o primeiro olhar com aquela expectativa dos que ironicamente prognosticam a “fraude do dia”. O que se escolheu? Qual a “vítima”? O que se diz? Como se conta? Previsíveis interrogações de um pessimista, dos tais optimistas tidos por bem informados. É a menina da dieta milagrosa, é o cliente ocasional da pastelaria do bairro, é o astrólogo das “tias” por tratar, é o palhaço dos tubérculos, é o pivot das notícias ardentes, é o comentarista das estratégias não testadas, é o ministro das tiradas baratas, em resumo, é um circo que aperfeiçoa e actualiza o seu deprimente reportório com a sagacidade de um Técnico Auxiliar de Estacionamento, vulgo, arrumador.


E que procuram eles, na sua diária e por isso incessante busca de visibilidade, que não tem forçosamente de significar notoriedade? Essa triste e cinzenta gente busca somente o encanto singelo de um, ainda que breve, aplauso.
Investem o que podem e apostam o que têm por um aplauso. É essa a disputada riqueza do Novo Homem neste milénio recém desbravado com a pompa e circunstância de una grãos de areia erguidos na luz de um sol que não conhece corações ou rostos.
Goste-se ou não, são espíritos que competem pelo agrado e aprovação gerais, menosprezando, se necessário, a argamassa que distingue os sérios dos “vendilhões do templo”. E o povo, nobre e sensível camada humana, que faz perante turbilhão de perplexidades e provocações? Impreparado e docemente hipnotizado, vê, ouve e reage com a volatilidade de uma nuvem sem rumo nem destino traçados.


Nunca como agora temi por um telejornal. A cada notícia, em cada discurso vislumbro primários e toscos ataques à inteligência, predicado humano em tempos relevante para a preservação e defesa da condição humana. Aos poucos, com sorrateirice de um rato faminto, pressinto a mediocridade que pode levar-nos a um beco com saídas fatalmente severas.


A confusão atingiu proporções tais que a faculdade para destrinçar o verdadeiro do falso, o autêntico do forjado esvai-se como se uma hemorragia inestancável consumisse o âmago da racionalidade. O que se faz por um aplauso?!!


Novo e pontualmente “quixotesco”, abraço, em cada rasgo de lucidez isolada ou colectiva, a coragem dos que ainda não se demitiram de, simplesmente, pensar. Mesmo que dê trabalho, faz bem pensar.


Apesar de haver quem, animado pela luz cega de uns quinze minutos de intensa revelação mediática, tudo faça por um sonoro aplauso, eu já apenas rogo um discreto mas genuíno quarto de hora de silêncio, que me devolva à verdade do que sou e à realidade em que, lá no fundo, sei que partilho com outros tantos.


Por fim, em jeito de uma nota de rodapé num qualquer serviço noticioso das oito, permito-me alertar:”ATENÇÃO AOS CAÇADORES DE APLAUSOS – existe um perto de si, disposto a tudo, mesmo… sem os merecer”.


José Manuel Alho

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