Não dormi. Ainda estou em estado de choque. A frustração de não ter futuro, de me irem ao bolso de forma tão brutal, deixa-me sem ânimo nem esperança. Afinal, que motivações restam?
- Obter link
- X
- Outras aplicações
A frustração de não ter futuro
»O professor da Universidade Lusófona, Luís Bento, considera que o Governo está a fazer «uma verdadeira revisão constitucional através da Lei do Orçamento Geral do Estado, o que me parece completamente absurdo» (Professor Luís Bento. Fonte: TSF).
Ontem, pela primeira vez na vida, senti vontade de emigrar.
Sou proveniente de uma família de origens humildes. Vi nos estudo e numa vida académica bem sucedida a possibilidade de ascender social e economicamente. Sou Professor, que em 2004 investiu numa especialização para se tornar num profissional (ainda mais) à altura de tão nobres funções.
Aos 38 anos, tudo o que tenho saiu-me do corpo, i.e., resulta do meu trabalho. Nunca me esquivei a pagar (nem tal me seria possível) os meus impostos e, desde 2005, vi a minha carreira consecutivamente revista com irreparáveis perdas salariais. Profissionalmente, o passado recente tem significado congelamento salarial, cortes nos vencimentos, taxação do Subsídio de Natal e, o mais grave, não tenho perspetivas de progressão pois também esse mecanismo de reconhecimento do mérito foi há anos sequestrado em nome... sei lá do quê.
Tudo tenho suportado - com a sonsa e lírica convicção dos que confiam nos seus decisores políticos - violentos e persistentes ataques à minha dignidade profissional. A vida tem sido feita de renúncias e de opções dolorosas.
Contudo, as circunstâncias parecem configurar um ataque brutal a todos quanto desempenham funções no setor público, alvos primeiros das mais injustas investidas sobre quem não tem outra opção que não seja a de viver dos rendimentos do TRABALHO. Neste particular, os funcionários públicos terão ganho o estatuto de "cidadãos de segunda".
Frustrado, sem qualquer horizonte de valorização profissional, esperava algum decoro e critério na repartição dos novos sacrifícios para 2012. Confiava, a bem da justiça e da coesão sociais, que se extinguisse esse sentimento generalizado traduzido na máxima "os funcionários públicos que paguem a crise". Acreditei que desta feita seria tratado com igualdade e, acima de tudo, com o respeito elementar devido a qualquer trabalhador. Puro engano.
(...) senti ontem à noite vontade de não estar aqui, de não fazer parte deste filme de terror, com personagens de (muito) baixo nível. Encaixei uma série metralhada de murros no estômago. Fiquei sem fôlego. Não dormi. Ainda estou em estado de choque. A frustração de não ter futuro, de me irem ao bolso de forma tão brutal, deixa-me sem ânimo nem esperança. Afinal, que motivações restam?
A DEMOCRACIA está a ser perigosamente enxovalhada por atores impreparados, que, contudo, parecem esconder uma agenda (inesperadamente ideológica) inconfessável.
Ingénuo, descurei que em Portugal se castiga e pune, como em nenhum outro país, quem trabalha. Neste retângulo à beira-mar plantado, TRABALHAR é candidatar-se a uma severa e pesada penitência porque o meu Portugal não foi feito para (os) TRABALHADORES. Está formatado para oportunistas e outros "chicos-espertos".
Enquanto os desmandos da banca passam impunes e os rendimentos do capital escapam imaculados à fúria persecutória do poder legislativo, senti ontem à noite vontade de não estar aqui, de não fazer parte deste filme de terror, com personagens de (muito) baixo nível. Encaixei uma série metralhada de murros no estômago. Fiquei sem fôlego. Não dormi. Ainda estou em estado de choque. A frustração de não ter futuro, de me irem ao bolso de forma tão brutal, deixa-me sem ânimo nem esperança. Afinal, que motivações restam?
A DEMOCRACIA está a ser perigosamente enxovalhada por atores impreparados, que, contudo, parecem esconder uma agenda (inesperadamente ideológica) inconfessável.
(...) o propalado "novo ciclo" de AJS não poderá começar tolerando amarras que resultem de chantagens mal explicadas e que passam pela concessão de cheques em branco a medidas que (em muito) ultrapassam o memorando acertado com a troika. Se os cortes nos subsídios são mesmo necessários nesta ordem de grandeza, há que repartir os sacrifícios por TODOS e não concentrá-los exclusivamente nos trabalhadores do Estado.
Nada espero do Presidente da República. Espero o pior da Justiça. E do Tribunal Constitucional (já) não espero que vele pelo cumprimento da Constituição, mormente pelas leis que consagram os direitos dos Trabalhadores - algumas delas insertas em tratados internacionais subscritos por Portugal - e que parecem agora violentamente atacadas com as medidas ontem anunciadas. Forçar uma revisão constitucional através da Lei do Orçamento Geral do Estado é uma batota que ninguém deveria consentir.
Por fim, uma palavra para o PS e seu líder. Não ter assumido o legado de José Sócrates em todas assuas dimensões e implicações foi um erro que agora limita e condiciona o posicionamento do maior partido da oposição. Contudo, o propalado "novo ciclo" de AJS não poderá começar tolerando amarras que resultem de chantagens mal explicadas e que passam pela concessão de cheques em branco a medidas que (em muito) ultrapassam o memorando acertado com a troika. Se os cortes nos subsídios são mesmo necessários nesta ordem de grandeza, há que repartir os sacrifícios por TODOS e não concentrá-los exclusivamente nos trabalhadores do Estado. Neste particular, AJS tem o momento e o pretexto para afirmar uma liderança forte e mobilizadora, solidarizando-se com a revolta e indignação dos funcionários públicos e suas famílias. A alternativa ser(i)á amochar e definhar sem apelo nem agravo.
PS - Uma colega perguntava hoje numa acalorada tertúlia: será que os portugueses voltaram a ter políticos que, como Oliveira Salazar, usam de falinhas mansas, precisam de água para recuperar a voz a meio de discursos de tom cândido, para depois "atirar a matar"?
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Comentários
Enviar um comentário