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Políticos que
gostem de pessoas
Por José Manuel Alho
Portugal e a Europa experimentam tempos de aflitiva indefinição, com lideranças pouco mobilizadoras que assistem ao definhamento da construção europeia tal qual a conhecemos, originariamente centrada na solidariedade.
Os povos periféricos sofrem um processo de estigmatização intolerável, conotados – muitas vezes por culpa própria… - com a preguiça e a irresponsabilidade, para quem a punição deverá ser exemplar mas redentora. Isto é: terá de implicar um sofrimento purificador.
Conceituados historiadores económicos asseguram não estarmos perante nada de realmente novo. Aqui, como nos demais países intervencionados, parece estar em curso a readaptação do Consenso de Washington (CW). Para os menos implicados, trata-se de uma expressão, nascida em 1989, criada pelo economista inglês John Williamson, ex-funcionário do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Numa conferência do Institute for International Economics, em Washington, Williamson elencou um conjunto de políticas que o governo dos Estados Unidos recomendava para a crise económica dos países da América Latina. Atente-se: para a América Latina.
No essencial, o CW preconiza:
· Abertura da economia por meio da liberalização financeira e comercial e da eliminação de barreiras aos investimentos estrangeiros;
· Amplas privatizações;
· Redução de subsídios e gastos sociais por parte dos governos;
· Desregulamentação do mercado de trabalho, para permitir novas formas de contratação que reduzam os custos das empresas.
Subtraindo ao assunto quaisquer juízos de valor, o Consenso de Washington (CW) sinalizou a premência de a economia ser entregue às leis do mercado até porque – afiançam os seus defensores – a presença estatal inibe o setor privado o obstaculiza o desenvolvimento. Aliás, a redução do tamanho e do papel do Estado foi (e é) dada como prioritária.
"Portugal parece palmilhar, com iniludível fracasso, o trilho que outros já percorreram. Obliterar ou camuflar as evidências seria insano. Mas porque as políticas são feitas por pessoas para as pessoas, cumpre observar o que se passa em nosso redor. Vemos os jovens a adiarem as suas opções de conjugalidade, de parentalidade, vivendo até mais tarde no reduto dos pais. O trabalho está a ser brutalmente desvalorizado e até as relações laborais conhecem alterações absolutamente inusitadas. Repare-se que até parece haver pejo em recorrer ao termo “trabalhadores”, que parece ter caído em desuso, em favor de uma nova nomenclatura assente na perniciosa pompa de “colaboradores”.
Ressalve-se que o CW não tratou, entre outros, de problemas sociais ligados à Saúde, à Educação ou à erradicação da pobreza. Estas questões – garantiram - seriam resolvidas como consequência da liberalização económica. Embora, de início, se revestissem de caráter académico, as conclusões do Consenso lograram cristalizar-se como a receita imposta por agências internacionais para a concessão de empréstimos. Por exemplo, os países que quisessem empréstimos do FMI deveriam ajustar suas economias às novas regras. Para acompanhar o processo das chamadas “reformas estruturais”, o FMI e as demais agências do governo norte-americano fomentaram a monitorização –para muitos, a nova designação para a velha intromissão nos assuntos internos –das alterações "modernizadoras".
Vou dispensar-me de estabelecer quaisquer paralelismos com a situação presente. Não se afigura necessário. Contudo, importa notar o que a História há muito nos ensinou: há receitas que não são transponíveis, régua e esquadro, de país para país ou de continente para continente.
Portugal parece palmilhar, com iniludível fracasso, o trilho que outros já percorreram. Obliterar ou camuflar as evidências seria insano. Mas porque as políticas são feitas por pessoas para as pessoas, cumpre observar o que se passa em nosso redor. Vemos os jovens a adiarem as suas opções de conjugalidade, de parentalidade, vivendo até mais tarde no reduto dos pais. O trabalho está a ser brutalmente desvalorizado e até as relações laborais conhecem alterações absolutamente inusitadas. Repare-se que até parece haver pejo em recorrer ao termo “trabalhadores”, que parece ter caído em desuso, em favor de uma nova nomenclatura assente na perniciosa pompa de “colaboradores”. Confrontamo-nos com um retrocesso civilizacional? Ele será (mesmo) necessário?
Debatemos. Temos liberdade(s). Protestamos. Votamos. Mas de que nos valem estes direitos se quem elegemos não nos governa? Quem votou em outras pessoas ou instituições cujo passado, programa ou rosto desconhecemos?
Existem perigos para a Democracia que poderemos estar a descurar. Por mais grave e séria que seja (um)a crise, não podemos – nem devemos! –sucumbir a inevitabilidades mal explicadas. Sob pena de sermos parte insignificante de uma folha excel, devemos, mais do que nunca, pugnar por devolver a palavra e a decisão aos políticos. Voltar ao essencial: políticos que gostem de pessoas.
José Manuel Alho
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