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Uma orquídea no deserto?
Por José Manuel Alho
“O Correio de Albergaria procurou saber quais as intenções da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha para o espaço (Praça Alameda 5 de Outubro), mas, apesar de sabermos que o nosso email chegou ao Gabinete do Presidente João Agostinho, não obtivemos qualquer resposta, pelo que não podemos elucidar os albergarienses sobre o que vai nascer em frente ao moderno Cineteatro Alba.” (in página 8 do jornal CA, de 17.OUT.2012)
Mais um dia de labuta. Olho em redor a gente que vai passando em frente ao edifício Paços do Concelho, de braço erguido para empunhar o tão gasto quanto experimentado guarda-chuva que as ajude no embate com as primeiras chuvas de Outono. Rostos tristes, acabrunhados, sem plastia, onde os olhos se cravam ostensivamente no chão, vergados por crescentes preocupações.
O Povo está como o tempo. Triste. Indeciso. Cinzento. O país afirma-se nestas doentias recorrências, que mergulham os governados em depressões que abatem a autoestima de uma casta já de si historicamente conformada. Enquanto a filhota não traz as carcaças acabadinhas de sair do forno, tempo para revisitar a última edição do jornal “Correio de Albergaria”, sabiamente deixada no tablier para temperadas degustações. A questão da Praça central inquieta-me. É um daqueles assuntos que merece apertada vigilância pública. Daí que me sinta defraudado com o silêncio dos meus eleitos. De que servirá esse silêncio quando as populações se veem assaltadas por dúvidas a respeito de matérias sobre as quais, com inteira legitimidade, buscam respostas ou esclarecimentos?
Estou particularmente à vontade pois, na edição inaugural do “CA”, afiancei que “em Albergaria, ao invés de se diabolizar a opinião diferente, estigmatizando a voz que lhe dá forma, urge instituir uma relação mais permanente entre quem exerce o poder e a sociedade civil. Esse é o principal barómetro que permite medir o(s) resultado(s) da ação política visando a satisfação das necessidades dos governados.”
"No entanto, tenho de ser honesto. Este tipo de postura só permite que os meus olhos cansados chorem ironias. Aos que me são próximos, sempre confidenciei que promover a viabilização de (mais) um órgão de comunicação social nesta terra, que fomente o pluralismo e estimule o pensamento crítico, seria uma empreitada só comparável à plantação de uma orquídea no deserto."
Bem sei que, na vida como na política, importa compreender, aplicando, aquela máxima inserta num pensamento árabe de que “somos senhores dos nossos silêncios e escravos das nossas palavras”. Contudo, de que vale ignorar e hostilizar quem simplesmente pergunta para informar? Que tipo de proveito alguém poderá pensar retirar de uma eventual lógica assente no paradigma “quem me interpela, está contra mim”? De que vale entrincheirar a coisa pública entre “nós”, que aqui estamos“dentro”, e o “mundo lá fora” que se uniu para “nos tramar”?
Lá no fundo e em abstrato, inviabilizar o esclarecimento, prejudica, de forma acentuadamente penosa, quem votou num executivo presumindo, a qualquer momento, poder estar a par, pela divulgação dos factos, do desempenho do poder democraticamente preferido. Estes, abrindo o jornal, constatarão que, dos seus eleitos, a reação foi a “não resposta”, o silêncio e a ausência de explicação. E os mais desconfiados, por maior que tenha sido a fidelidade oportunamente ajuramentada, dispor-se-ão a especular que, “se calhar, haverá algo a esconder ou a temer”.
Cumulativamente, que ninguém pense ser senhor do pensamento e da razão dos cidadãos, mesmo que ameaçando de excomunhão quem ousar opor-se a determinações papais. Acalentar a esperança de poder impor e controlar o que os outros leem e ouvem revelar-se-ia uma veleidade contraproducente, pejada de erros de cálculo.
No entanto, tenho de ser honesto. Este tipo de postura só permite que os meus olhos cansados chorem ironias. Aos que me são próximos, sempre confidenciei que promover a viabilização de (mais) um órgão de comunicação social nesta terra, que fomente o pluralismo e estimule o pensamento crítico, seria uma empreitada só comparável à plantação de uma orquídea no deserto.
Resta saber se os tempos que vivemos são de acarinhar as orquídeas ou, em alternativa, favoráveis à perpetuação de desertos.
José Manuel Alho
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