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Um olhar sobre o Ensino Primário
Fruto de décadas de negligência e abandono, o parque escolar afeto ao Ensino Primário – agora pomposamente designado de 1.º Ciclo do Ensino Básico (1.º CEB) – conheceu uma degradação que só envergonhou consecutivas gerações de autarcas ostensivamente inaptos e um punhado de profissionais da Educação que sucumbiram a uma visão perversamente redutora das suas responsabilidades.
De igual modo, não deve olvidar-se a possibilidade de a deterioração das infraestruturas do ensino público naquele setor poder ter sido deliberada em razão de interesses conflituantes e vincadamente inconfessáveis. A oferta privada, em muitos municípios, terá ganho uma posição escusadamente dominante ainda difícil de aceitar.
A última década, com outra casta de decisores autárquicos, trouxe a renovação exigida pelos contribuintes. A rede escolar vem sendo repensada e redimensionada aos valores impostos pela taxa de natalidade e os centros escolares começam a fazer o seu caminho. Na esmagadora maioria dos casos, estamos perante equipamentos de fino recorte arquitetónico, com elevados índices de funcionalidade que até chegam a sobrepor-se às melhores expectativas das respetivas comunidades educativas. Obra tangível que enobrece muitas edilidades e reforça o comprometimento de todos na qualificação do processo de ensino e aprendizagem.
A transformação que até agora descrevi não logra, contudo, apagar preconceitos atávicos há muito alimentados por almas pequenas e que subjugam, de forma irracional, o 1.º CEB para um estatuto de menoridade absolutamente intolerável. Neste particular, as autarquias enfrentam novo desafio: o de manter a exigência no investimento, que se acentua nesta conjuntura extraordinariamente adversa.
"A transformação que até agora descrevi não logra, contudo, apagar preconceitos atávicos há muito alimentados por almas pequenas e que subjugam, de forma irracional, o 1.º CEB para um estatuto de menoridade absolutamente intolerável. Neste particular, as autarquias enfrentam novo desafio: o de manter a exigência no investimento, que se acentua nesta conjuntura extraordinariamente adversa.
Em concreto, não é admissível que muitas escolas só estejam dotadas com um computador por sala e usualmente atribuído à turma do 4.º ano. Muitas vezes, os profissionais daquele nível de ensino escutam: “se é para o 1.º Ciclo, qualquer chaço velho serve”. Agora que as infraestruturas foram reconvertidas e adaptadas às exigências do século XXI, importa redirecionar esforços para a modernização tecnológica e didática das escolas do 1.º Ciclo. Ponderar e executar uma aposta séria nas novas Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC) deve ser um desiderato de edil ambicioso e determinado. Complementarmente, caberá às autarquias certificarem-se que as dotações orçamentais por si concedidas são efetivamente usufruídas pelo 1.º CEB no 1.º CEB. Chegaram-me numerosos emails de professores queixando-se de que será recorrente ouvir-se ”não haver dinheiro para comprar pioneses, esferográficas ou cartolinas”. Asseveram esses docentes que as suas Câmaras Municipais cumpriram as obrigações e que as verbas terão mesmo chegado ao seu destino. Se assim é, urge escrutinar a gestão que é feita desses dinheiros públicos. E sem contemplações.
Daí que esta seja também uma empreitada extensiva ao professorado. Combater estatutos de menoridade é um imperativo que a todos deve convocar e mobilizar. O Ensino Primário e os seus profissionais devem ocupar o(s) lugar(es) que lhes cabem por direito. Bater-se por lideranças assertivas e representantes competentes nos diversos órgãos das suas unidades orgânicas (vulgo Agrupamentos) impõe-se com excecional premência. Também se exortam os docentes a, sem temor(es), escolherem os seus melhores e a deixarem de premiar lideranças passivas que vão ascendendo na hierarquia por exclusão de partes, sem nunca se lhes ter conhecido pensamento ou ação meritórios. De nada vale perorar sobre estas matérias se os agentes do meio se recolhem a um imobilismo sempre conivente.
José Manuel Alho
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