Crónica.


O Natal de David



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Por JOSÉ MANUEL ALHO


 


David está de partida de Lausanne. Ali, na quarta cidade suíça, situada no território francófono do país, às margens do Lago Lemano, esta alma lusa exerce funções no Fassbind Hotel Alpha-Palmiers, cravado na Rue du Petit-Chêne. Apesar de se localizar bem próximo das atrações populares da cidade (Église de St François, Walking Tour, Place de la Palud…), David encara as suas responsabilidades de porteiro como se de um sacerdócio se tratasse, repetindo à exaustão “faça do Fassbind Hotel Alpha-Palmiers a sua casa longe de casa”. É essa a sua deixa, o lema de um hotel alvo de uma renovação recente.


Só, acompanhado de uma bagagem tão frugal quanto necessária, este coração lusitano atravessa os céus e, pela janela do avião, anseia por terra firme. É pelo Natal que volta a ganhar cor, aquela plastia dos vivos que em tudo se sobrepõe à sisudez formal de quem tem um reportório comportamental mecanizado. Inevitabilidades.


Incompatibilizado com o irmão mais velho, um optometrista agora estabelecido por conta própria, David desespera por ver os pais e, acima de tudo, por ver – ainda que por fugazes instantes – a silhueta de Bianca, o amor nunca concretizado mas sempre resistente. É com a sua imagem no pensamento que se deita e acorda, envolvido em fantasias mil qual sal que o conserva e derrete nas noites onde o gelo da solidão mais o oprime.


A aterragem não trouxe sobressaltos de maior e é tempo de chamar um táxi que o leve de regresso à Régua. Como era previsível, ninguém o esperava. De novo, entregue ao estranho isolamento dos que sempre voltam às origens. Durante a viagem, tempo ainda para se por a par das últimas relativas à cerimónia de Entronização de novos Confrades Honorário e Efetivos da Confraria dos Enófilos da Região Demarcada do Douro. Uma vez mais, o “Diário de Trás-os-Montes” faz uma cobertura especial do evento. David é, à sua maneira, um embaixador dos vinhos da região. Para o efeito, recebe de João Barreleiro, Mestre Procurador que preside à Câmara Dionisíaca (direção), réplicas de todas as edições livreiras da Confraria. Aliás, foi por intermédio da persistência militante de David que o Fassbind Hotel Alpha-Palmiers passou a oferecer aos seus clientes alguns dos mais bem cotados vinhos de mesa durienses. Um feito que logo inscreveu no seu curriculum.



" (...) assoma-se um vulto que se reflete num chão impecavelmente envernizado. Ei-la. Regressada das suas noites e sonhos perdidos. Bianca, de passo destemido, entra para inundar aquela sala de poesia que só ele vislumbra num super slow motion que mais parece saído de um qualquer filme de época. Sente-se impelido a cumprimentá-la. Um tremor que lhe toma as pernas inusitadamente bambas chega-lhe ao coração em absoluto desgoverno. O palpitar acelerado rouba-lhe a voz e o momento perde-se como grãos de areia por entre dedos trémulos. Ela nem o vira mas o formigueiro no estômago confirmava o óbvio. Para ele, já era Natal.



A viagem, feita com um taxista que professa a religião Benfica, terminara. Um reguense chegara à sua terra. Encheu o peito e, com o olhar fixado no horizonte, inspirou aquele cheiro onde se misturam o sacrifício, a coragem e a paixão de uma gente que esculpiu, com mestria, um ninho de prodigiosa beleza.


Na verdade, Régua é uma cidade moderna, que apenas conheceu a sua condição de concelho após a época pombalina, no ano de 1836. Toda a importância reconhecida se inicia por culpa e graça da criação, na “Régoa”, da Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, pelo Marquês de Pombal em 1756. Desde 14 de Agosto de 1985 que foi elevada à categoria de cidade. Em 1988 foi reconhecida pelo “Office Internacional de la Vigne et du Vin” como Cidade Internacional da Vinha e do Vinho.


Sentiu-se vergado por uma fome que se acentuou com os aromas de um berço sempre amado. Uma saudade telúrica que espevita apetites. Sem familiares que o acolhessem para a primeira refeição, dirigiu-se ao Restaurante da Estação. Liberto de qualquer laivo de indecisão, foi peremptório. A gente nova do estabelecimento não o (re)conhece. Pediu arroz de forno com cabrito assado. E uma Barca-Velha para acompanhar.


Na porta de entrada, assoma-se um vulto que se reflete num chão impecavelmente envernizado. Ei-la. Regressada das suas noites e sonhos perdidos. Bianca, de passo destemido, entra para inundar aquela sala de poesia que só ele vislumbra num super slow motion que mais parece saído de um qualquer filme de época. Sente-se impelido a cumprimentá-la. Um tremor que lhe toma as pernas inusitadamente bambas chega-lhe ao coração em absoluto desgoverno. O palpitar acelerado rouba-lhe a voz e o momento perde-se como grãos de areia por entre dedos trémulos. Ela nem o vira mas o formigueiro no estômago confirmava o óbvio. Para ele, já era Natal.


José Manuel Alho

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