Impostos conjunturais e transitórios que sobrecarregam uma parte da população deliberadamente estigmatizada para a prossecução de uma justiça social de pelourinho.

Entrei em 2013 sem pachorra.


Estou farto!





"Como servidor público, casado com outra servidora pública, não vi em nenhum canal de TV ou outro órgão de comunicação social importar-se com o impacto global da “subtração” de quatro salários cujo corte o TC declarou inconstitucional. Ninguém quis saber como honrei os meus encargos e o que tive de suportar para me manter na vertical. Chegou o Natal e senti-me ultrajado. Não recebi o subsídio que o TC entendeu ser meu/nosso por direito e nem uma palavra para os servidores do Estado louvando o seu sacrifício, civilidade e patriotismo. Cadê a reportagem?



Entrei em 2013 sem pachorra para aguentar ataques soezes à minha inteligência. A pretexto do envio do Orçamento de Estado para o Tribunal Constitucional (TC), soltou-se um coro de críticas, sob a forma de pressão intolerável, dos mesmos de quem habitualmente se ouve (quando é do seu interesse) a defesa do princípio da separação de poderes…


Alguma imprensa do regime, que diz ao povão que o empobrecimento é necessário e que a Constituição é um empecilho ao “avanço da pátria”, logo se apressou a contabilizar o que custaria a defesa de um Estado de Direito, entre outros recados que os donos sempre lembram quando pressentem a iminência do jugo da legalidade.


Como servidor público, casado com outra servidora pública, não vi em nenhum canal de TV ou outro órgão de comunicação social importar-se com o impacto global da “subtração” de quatro salários cujo corte o TC declarou inconstitucional. Ninguém quis saber como honrei os meus encargos e o que tive de suportar para me manter na vertical. Chegou o Natal e senti-me ultrajado. Não recebi o subsídio que o TC entendeu ser meu/nosso por direito e nem uma palavra para os servidores do Estado louvando o seu sacrifício, civilidade e patriotismo. Cadê a reportagem?  Mas o que somos afinal? Terão sido os funcionários públicos que deixaram a banca nacional e a governança neste estado de carência aflitiva?



"A léria dos “adquiridos” só é usada para ser confundida com presumidos “privilégios”, virando portugueses contra portugueses. É curioso que os direitos laborais, constitucionalmente estabelecidos, possam ser sorrateiramente desprezados em nome de estados de alegada “emergência nacional”. Mas tocar nos contratos das PPP ou taxar verdadeiramente os dividendos da banca já a cantoria pia fininho. Tudo é mais “espinhoso”, complexo” e, bem vistas as coisas, afiançam alguns comentadores do reino, a “poupança daí retirada seria uma ridicularia”. Imagine-se! É-se então obrigado a concluir que o que importa é sacar impostos aos trabalhadores porque os ricos da ocidental praia lusitana, essas portentosas e continuadas fontes de prosperidade coletiva, podem fugir se ameaçados pelo país neste momento de aflição supostamente partilhada.



Sofri cortes salariais, carrego há anos uma carreira congelada, retiraram-me os subsídios que outros trabalhadores, só por laborarem no setor privado, mantiveram e a culpa continua a ser minha? Minha?!! A quem o salário não é atualizado há um ror de anos e o subsídio de refeição mal chega para uma sopa?! Se os chamados desígnios nacionais a todos dizem respeito, porque se concentram os sacrifícios somente em alguns? E não venham com a treta de estes cortes serem contabilizados como redução da despesa porque, em bom rigor, configuram impostos conjunturais e transitórios que sobrecarregam uma parte da população deliberadamente estigmatizada para a prossecução de uma justiça social de pelourinho.


Cumulativamente, impinge-se o discurso do fim dos mal-afamados “direitos adquiridos”. Os direitos, quando reconhecidos, estão adquiridos. Ou há direitos ou não. A léria dos “adquiridos” só é usada para ser confundida com presumidos “privilégios”, virando portugueses contra portugueses. É por isso curioso que os direitos laborais, constitucionalmente estabelecidos, possam ser sorrateiramente desprezados em nome de estados de alegada “emergência nacional”. Mas tocar nos contratos das PPP ou taxar verdadeiramente os dividendos da banca já a cantoria pia fininho. Tudo é mais “espinhoso”, "complexo” e, bem vistas as coisas, afiançam alguns comentadores do reino, a “poupança daí retirada seria uma ridicularia”. Imagine-se! É-se então obrigado a concluir que o que importa é sacar impostos aos trabalhadores porque os ricos da ocidental praia lusitana, essas portentosas e continuadas fontes de prosperidade coletiva, podem fugir se ameaçados pelo país neste momento de aflição supostamente partilhada. Pelo amor da Santa, não toquem nos "direitos dquiridos" da banca e das PPP!



"Pelo amor da Santa, não toquem nos "direitos adquiridos" da banca e das PPP!



No entretanto, deixa-se fugir para a populaça que os gabinetes ministeriais, com despesas mergulhadas numa tal "opacidade", acolhem jovens "peritos" e "especialistas" pagos a peso d'ouro. Quem vive afinal acima das (minhas) possibilidades?


Enquanto a Constituição serve de ardil para expedientes usualmente inconfessáveis, os portugueses, entre as ressacas das festas, mal percebem os biliões de euros anunciados para os bancos em tão arrastada quanto mal explicada necessidade. Divulgam-se apoios com eventuais contornos leoninos para o contribuinte pagar e… “no pasa nada”. O servidor público é que está pejado de privilégios, ganha muito e faz pouco. Viremos também os novos contra os velhos que ajuda à festa e apimenta o PREC (vulgo Processo de Empobrecimento em Curso) .


Estou farto. E no meio desta revolta que não sei como conter em toda a sua grandeza, cai-me no regaço a vetusta capa das “Viagens Na Minha Terra'' onde Almeida Garrett garante a determinada altura que “A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.'' Bíblico?...


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