Artigo de Opinião publicado no jornal "Correio de Albergaria", de 20.02.2013.

Não há raio que


nos acorde!


Por José Manuel Alho


 



 


Na sequência da revelação de Gian Maria Vian, diretor do diário do Vaticano, "L'Osservatore Romano", sabe-se agora que Bento XVI tomou a decisão de renunciar ao papado há muito tempo, depois da viagem que fez ao México e a Cuba. No dia do anúncio ao mundo, e depois do cardeal Angelo Sodano ter comparado a resignação de Bento XVI a um "trovão em céu sereno", um raio - quiçá premonitório - atingiu a cúpula da Basílica de S. Pedro.


O exemplo de desprendimento e lucidez oferecido pelo Sumo Pontífice parece não encontrar acolhimento em muitos agentes desta nossa multifacetada República. Não há raios, com efeitos suficientemente redentores, que atinjam as cúpulas de muitas das nossas mui paroquiais basílicas cravadas neste manso território.


Daí que se lamente o triste retrato da política nacional, onde o fosso entre o discurso e as práticas de muitos de seus protagonistas é marcado pela falsidade contumaz, pela compulsão ao logro e pela insolência atávica. Ao longo dos séculos, muito já se falou a respeito da ética na vida pública. Muito também se escreveu sobre as formas e os expedientes moralmente inquinados de expressão da vontade popular. Até já houve quem se perguntasse se todos os cidadãos, sejam eleitos ou eleitores, não seriam, em potência, essencialmente corruptos.



"A coletividade tem permitido um conjunto de transgressões que entretanto abriu caminho a uma perigosa prole de intrujões que constroem reputações e acumulam fortunas socorrendo-se de retóricas pseudomoralistas, de um paternalismo que preconiza o sofrimento de muitos para a salvaguarda dos interesses de uns poucos. "



Inexplicavelmente, muitos dirigentes teimam em confundir notoriedade pública com legitimidade. Outros parecem ainda ignorar que a reputação e a credibilidade não são obtidas à custa de pomposas tiradas oratórias, usualmente bem regadas, ou através de posturas ensaiadas sob o erudito escrutínio de tarimbados especialistas em marketing eleitoral, mas – ao contrário – conseguidas a partir de obras concretas em favor do bem comum, da justiça social, da solidariedade e dos (reais) superiores interesses do país.


Assim, estaremos perante a mera deslealdade dos políticos ou algo ainda mais grave: o fim da decência pública? Para esta perceção de uma atmosfera de corrupção sistémica, que prostitui a vida pública e destrói a legitimidade da representação popular, muito terá contribuído a transformação dos mandatos eleitorais em salvo-conduto para negociatas, alicerçadas em tão poderosas quanto acintosas impunidades, que apagaram todas as fronteiras éticas nas relações, por exemplo, entre o público e o privado. A coletividade tem permitido um conjunto de transgressões que entretanto abriu caminho a uma perigosa prole de intrujões que constroem reputações e acumulam fortunas socorrendo-se de retóricas pseudomoralistas, de um paternalismo que preconiza o sofrimento de muitos para a salvaguarda dos interesses de uns poucos. E é nestas conjunturas que o regime democrático, diminuído por uma Justiça com malha larga, fica genuinamente ameaçado porque sujeito a nocivas derivas autoritárias que a História há muito se encarregou de sinalizar.


José Manuel Alho

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