Opinião.

A aritmética ao contrário



Por José Manuel Alho


Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, foi eleito, no passado dia 13, como sucessor de Bento XVI, e será o 266.ºPapa da Igreja Católica. O primeiro Sumo Pontífice latino-americano, que se chamará Francisco como o santo dos pobres, terá – afiançam os vaticanistas - um perfil ortodoxo na doutrina e flexível nas questões sociais.


Numa apreciação necessariamente precoce, creio estarmos perante uma eleição geopolítica que derrota, sem apelo nem agravo, os membros da Cúria. Ganharam os reformistas e com eles grande parte dos não europeus, com os americanos a confirmarem a liderança de um ímpeto há muito anunciado.



"Não vou sucumbir à tentação de esquadrinhar o imperscrutável. Como católico, não esperava tanto deste conclave. A escolha do primeiro papa não europeu em quase 1 300 anos - o último foi São Gregório III (731-741), que era sírio – é uma novidade extraordinária.



A escolha do 13º cardeal mais cotado na bolsa de apostas de Londres antes do fim do conclave é de tal modo surpreendente que os arautos das mais rebuscadas teorias da conspiração se apressaram a concluir que os Illuminati haviam dado o tão prometido tiro de misericórdia na Igreja Católica ao elegerem um papa oriundo da Ordem (dos Jesuítas) que originou os Cavaleiros Templários. Será que a profecia de São Malaquias, que o último pontífice seria um papa negro, se confirmou pelo facto dos jesuítas usarem vestes escuras? Como interpretar a coexistência de dois Papas vivos na Cúria Romana? Um branco que, apesar da renúncia, ainda sustenta o título de Papa Emérito, e outro preto, eventual ponto de partida da derradeira ruína do catolicismo...


Não vou sucumbir à tentação de esquadrinhar o imperscrutável. Como católico, não esperava tanto deste conclave. A escolha do primeiro papa não europeu em quase 1 300 anos - o último foi São Gregório III (731-741), que era sírio – é uma novidade extraordinária. Confrontada com a brutal perda de credibilidade, que se soma à crescente perda de influência e de fiéis por todo o mundo, a Igreja Católica tenta acertar o passo com a sua ancestral vocação evangelizadora, mais tolerante ao diálogo inter-religioso. Mas, acima de tudo, falo do que senti quando aquele vulto obviamente humano se revelou na varanda da basílica de S. Pedro. Senti estar perante um rosto acolhedor, humilde, fraterno e gerador de esperança.


Mesmo que se venha a tratar de um Papa de transição, deseja-se que ajude os povos a retomarem os caminhos da esperança. Daquela força que ajuda a renovar o mundo apesar de todas as tribulações que afligem o ser humano em pleno século XXI. Porque ter esperança é, cada vez mais, saber olhar as pessoas na sua melhor luz, anseia-se que o Papa Francisco seja um aliado no combate contra o medo e a ignorância, com a serena coragem de quem faz a aritmética ao contrário para colocar as pessoas no centro de toda a ação.


 


José Manuel Alho

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