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Sem honra nem confiança
Por José Manuel Alho
O sol voltou mas nem por isso o povo ficou mais contente. Os rostos acabrunhados cruzam-se com o invernoso alheamento que há demasiado tempo inundou este país de pessoas tristes.
Os indivíduos, assustados com a desgovernada proliferação de narrativas sobre as fatalidades da nação, sucumbem ao pessimismo que rasga avenidas para os tremendistas anunciarem novas desgraças. No entretanto, o país assiste, qual paciente grogue com tanto desvario, ao corrupio de encenações, montagens e fingimentos de quem, num dos momentos de maior exigência da História de Portugal, não era simplesmente para aqui chamado. Para cúmulo, as televisões esguicham personagens que fedem incompetência e tresandam a mentira.
Por entre malparidos discursos à pátria, cartas de aforro com chancela presidencial e outras patranhas para propagar aquele medo que contamina a Razão, o país parece esboçar ténues movimentos de emancipação cívica neste retângulo com a maior percentagem de ex-ministros por metro quadrado no comentário político desta Europa em tempos recomendável ao progresso da Humanidade.
"Parece que acordamos de uma apatia coletiva para vivermos a madrugada do pensamento, a aurora da inteligência. É como se o doente, a quem diziam padecer de doença incurável e penosa, qual calvário mas sem a parte da redenção, lograsse descortinar os contornos de uma terapêutica suportável e ainda assim eficaz. E aqui tudo fica mais perigoso porque imprevisível e até incontrolável.
Com timidez e vergonha q.b., as pessoas lá vão ousando questionar as verdades consumadas tão grosseiramente vendidas para justificar muitos dos estragos infligidos ao país. Com a assessoria do tempo – parceiro sempre valioso em assuntos de justiça e verdade – a triste gente que sofre vai descobrindo lacunas, apontando omissões e outras incoerências que ferem de morte toda a lógica de expiação e punição que tem presidido à ação política vigente, em muitos casos, de contornos escandalosamente inconfessáveis.
Parece que acordamos de uma apatia coletiva para vivermos a madrugada do pensamento, a aurora da inteligência. É como se o doente, a quem diziam padecer de doença incurável e penosa, qual calvário mas sem a parte da redenção, lograsse descortinar os contornos de uma terapêutica suportável e ainda assim eficaz. E aqui tudo fica mais perigoso porque imprevisível e até incontrolável. As democracias ressentem-se sempre que as pessoas se acham vítimas de uma sujeição desnecessária, que coarta e subtrai direitos tidos por fundamentais.
Some-se a isto o sentimento generalizado de que, ao mais alto nível da vida pública, muitos dos protagonistas, para o serem, recorreram à mentira sem nada recear.A mentira é sempre uma rutura unilateral da confiança até então existente. É a ruína de um pacto de honra que destrói a confiança daquele que foi alvo da mentira.
E sem honra nem confiança, não há legitimidade que subsista.
José Manuel Alho
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