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Ao alcance de qualquer um
O Brasil foi assolado por uma gigantesca vaga de protestos que a todos impressionou. Tudo terá começado com um aumento das tarifas dos transportes públicos que, em pouco tempo, foi revogado. Com efeito, um povo engasgado com tanta indiferença a questões que considera cruciais ao seu bem-estar decidiu espoletar uma avalanche de insatisfação e reivindicações várias.
Nas bandeiras, cartazes, faixas e cânticos percecionou-se um movimento cívico que impressionou pela sua consistência e esclarecimento. Mais do que a questão interna atinente à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, visando restringir o poder de investigação do Ministério Público, mormente nos casos de crimes políticos, outros motivos animaram os manifestantes. A defesa de uma Saúde e Educação públicas de qualidade, passando pelos gastos com o Campeonato do Mundo de Futebol a ter lugar no Brasil em 2014 ("Da Copa eu abro mão, eu quero é mais dinheiro para a saúde e educação"), exaltaram a premência do combate à corrupção, o desiderato maior que congregou milhares de pessoas.
Enfrentando forças policiais impreparadas, uma classe média em perda aliou-se a uma juventude qualificada e informada, com o trunfo do acesso à internet e às redes sociais. Um cocktail que logrou generalizar um sentimento de rejeição aos partidos políticos em favor de uma sociedade mais justa e solidária.
"Em Portugal, o medo do futuro tomou conta do íntimo de cada um. Mais do que sereno, o povo ficou manso. Os protestos não são, por norma, um exercício de esperança mas uma demonstração de temor. De igual modo, também não recordo que alguém se tenha manifestado contra a voluptuosidade da Expo’ 98, os estádios de futebol do Euro 2004 que nada trouxeram ou mesmo contra as autoestradas que tanto dinheiro desviaram dos nossos hospitais e escolas. E quantos milhares saíram à rua quando, de uma penada, se encerraram urgências de centros de saúde e estabelecimentos de ensino em localidades posteriormente abandonadas pelos sucessivos executivos governamentais? Quantas avenidas se inundaram protestando contra a ineficiência da Justiça nos casos de megacorrupção? Quem participaria numa manifestação, antes de um Benfica-FC Porto, exigindo mais dinheiro (dos seus impostos) para a Saúde e Educação?
Condenando o vandalismo que entretanto se associou aos protestos, importa ponderar uma comparação com a situação portuguesa. Na verdade, a classe média brasileira revela-se mais politizada, que acredita e luta por um futuro melhor. Anima-a um sentimento de esperança na construção de uma sociedade mais íntegra.
Em Portugal, o medo do futuro tomou conta do íntimo de cada um. Mais do que sereno, o povo ficou manso. Os protestos não são, por norma, um exercício de esperança mas uma demonstração de temor. De igual modo, também não recordo que alguém se tenha manifestado contra a voluptuosidade da Expo’ 98, os estádios de futebol do Euro 2004 que nada trouxeram ou mesmo contra as autoestradas que tanto dinheiro desviaram dos nossos hospitais e escolas. E quantos milhares saíram à rua quando, de uma penada, se encerraram urgências de centros de saúde e estabelecimentos de ensino em localidades posteriormente abandonadas pelos sucessivos executivos governamentais? Quantas avenidas se inundaram protestando contra a ineficiência da Justiça nos casos de megacorrupção? Quem participaria numa manifestação, antes de um Benfica-FC Porto, exigindo mais dinheiro (dos seus impostos) para a Saúde e Educação?
De momento, a realidade é que o povo português não tem alento nem tempo para protestos verdadeiramente organizados. Com alguém há muito previra, quando se quer um povo submisso, deve-se mantê-lo na miséria. E se, para cúmulo, numa sociedade que respira inveja, virarmos novos contra velhos, empregados contra desempregados e trabalhadores do privado contra servidores públicos, (des)governar até pode ser uma tarefa ao alcance de qualquer um.
José Manuel Alho
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