Artigo de Opinião publicado na última edição do jornal "Correio de Albergaria".

Medo íntimo




Por José Manuel Alho

Dei por mim a sucumbir à evidência que muitos pressentem e poucos aceitam reconhecer: vivemos efetivamente subjugados pelo medo. O medo, fruto da apreensão de um mal como ameaça iminente e à qual não se vê como resistir, pode ter várias causas e muitos rostos. Mas, enquanto tal, é paralisante. Daí que as pessoas vivam numa angústia dilacerante, uma espécie de pânico que acanha, diminui e desvirtua a livre expressão de opiniões e vontades.

Na rua, no local de trabalho ou até em tertúlias tão informais quanto imprevistas, vislumbra-se, sem dificuldade, o condicionamento a que a maioria se imporá. Tudo parece medido e pesado com reverencial temor. Um medo íntimo que esgaça a mais ténue veleidade de se ser autêntico, genuinamente solto de amarras castradoras. O medo de perder o trabalho, o medo de cair na miséria, o medo de renunciar aos projetos mais queridos de vida ou, simplesmente, o medo de se erguer para dizer o que pensa empobreceu a atitude individual e coletiva de um povo recorrentemente martirizado pela incompetência da sua classe governante.

É curioso que já Maquiavel, referência incontornável na matéria, aconselhava o Príncipe a instigar o medo nos seus súbditos porque este seria mais potente e duradouro do que o amor. Por seu turno, Napoleão Bonaparte também ensaiara reflexão sobre tão ousada opção de governo ao garantir que “duas alavancas movem o homem: o interesse e o medo.” De facto, quem conhecer os interesses e os medos de um homem, saberá o principal de cada um.

Confinando esta abordagem à situação que Portugal presentemente enfrenta, não há como dissociar o medo desta crise que a (quase) todos subtraiu esperança. Depois da governação para além do memorando da troika, afigura-se incontroverso que o Governo passou rebuscadamente a governar pelo medo. Primeiro, assusta-se as pessoas com resoluções que as podem sentenciar a uma vida de penas e tormentas. Depois, diz-se que afinal não era nada. Por fim, surgem medidas alternativas, tão graves ou piores do que as que foram chumbadas.



Em resumo: o Governo afoga-nos. Depois, salva-nos num ato de singular altruísmo. Mas, lá no fundo, o afogamento e a salvação resumem-se cinicamente ao mesmo.

Bem recentemente, o Conselho da Europa alertou que as medidas de austeridade estão a enfraquecer os direitos humanos porque os governos "esquecem" as suas obrigações nesta área e os credores não contemplam os direitos humanos nos programas de assistência. Complementarmente, o Papa Francisco enunciou na sua exortação: “É preciso repetir que os mais favorecidos devem renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais liberalidade, os seus bens ao serviço dos outros”.

Desesperança e medo. Eis a combinação explosiva que poderá levar um povo enganado e negligenciado a atos que contrariam a sua vocação histórica. Com efeito, há perceções que ferem de morte todo o tipo de legitimidade. Mesmo a formal. Por exemplo, um político sério cumpre o mandato de acordo com as promessas que fez aos seus eleitores. Um aldrabão faz o contrário.

José Manuel Alho

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