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Perdoai-lhes, Senhor.
Eles sabem o que fazem.
Por José Manuel Alho
O país está a desconjuntar-se. As assimetrias acentuam-se. A petulância das chamadas elites nacionais emproa-se com requintada perversidade. E também eu me indigno quando, por mero acaso, me confronto com as palavras de Passos Coelho proferidas em 6 de novembro de 2010: «Não podemos permitir que aqueles que conduzem aos maus resultados andem sempre de espinha direita como se nada fosse com eles. Não podemos permitir que todos aqueles que estão nas empresas privadas ou que estão no Estado fixem objetivos e não os cumpram. Sempre que se falham os objetivos, sempre que a execução do Orçamento derrapa, sempre que arranjamos buracos financeiros onde devíamos estar a criar excedentes de poupança, aquilo que se passa é que há mais pessoas que vão para o desemprego e a economia afunda-se. Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus atos?»
Volvidos pouco mais de dois anos, o Governo de Passos & Portas é o recordista dos orçamentos retificativos. Na verdade, os consecutivos orçamentos retificativos impuseram-se uma vez que os pressupostos em que assentaram os orçamentos iniciais foram (e são!) uma trapaça. Uma patranha para legitimar os “milagres económicos” recorrentemente impingidos.
Passos Coelho, o mosqueteiro que abateu o governo anterior devido à austeridade excessiva do PEC IV, já tem obra para mostrar: um país que mais se assemelha à ruína de um cenário de guerra com 250 000 novos emigrantes, muitos deles jovens altamente qualificados, bem como os cerca de 300 000 desempregados criados pelo “ajustamento”. E tudo isso para continuarmos a ostentar um défice que não desce, um PIB com uma queda acumulada de 8,2%, uma dívida pública que disparou para os 127%.
"Este poder é forte com os fracos e fraco com os fortes. Não se entendem os cortes nos salários e pensões quando à fúria austeritária escapam cincos “peixes graúdos”: as Parcerias Público-Privadas (PPP), os swaps, o BPN, o défice tarifário e os mercados regulados. Se dúvidas houvesse, cumpre reconhecer o até há pouco inconcebível: o poder político é hoje controlado pelo poder económico."
Bem recentemente, o PM ousou anunciar: »Hoje, Portugal e os portugueses são vistos como gente trabalhadora, cumpridora e honrada (…)». Declaração cínica, que avilta aqueles que verdadeiramente têm suportado tão impiedoso calvário. Com efeito, os portugueses são vistos como gente trabalhadora, cumpridora, honrada e… POBRE. E ao atual Governo o devem! Ao radar analítico do antigo jota parece escapar que um mar de gente, cada vez maior, continua a empobrecer, a “morrer” lentamente e, pasme-se, uns quantos a “mamar” forte e feio e a engrossar a equipa dos multimilionários.
Este poder é forte com os fracos e fraco com os fortes. Não se entendem os cortes nos salários e pensões quando à fúria austeritária escapam cincos “peixes graúdos”: as Parcerias Público-Privadas (PPP), os swaps, o BPN, o défice tarifário e os mercados regulados. Se dúvidas houvesse, cumpre reconhecer o até há pouco inconcebível: o poder político é hoje controlado pelo poder económico.
Deixados à mercê desta gente subserviente, sem ideias, sem rumo e que mente, os portugueses debatem-se tragicamente com a falência dos principais partidos, fechados sobre si mesmos, acéfalos e negligentemente passivos. Para memória futura, ficará o registo de termos vivido uma época sem mérito que figurará, para vergonha coletiva, na nossa História com nove séculos!
Aqui chegados, lembremos a sabedoria premonitória de Sophia de Mello Breyner Andresen ("As pessoas sensíveis", in Livro Sexto): »Ganharás o pão com o suor do teu rosto" /Assim nos foi imposto /E não: / "Com o suor dos outros ganharás o pão" / Ó vendilhões do templo/ Ó construtores / Das grandes estátuas balofas e pesadas / Ó cheios de devoção e de proveito / Perdoai-lhes Senhor / Porque eles sabem o que fazem.»
José Manuel Alho
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