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Pátria hostil
Por José Manuel Alho
A palavra “cleptocracia” significa “Estado governado por ladrões”. Literalmente. O termo refere-se a um tipo de governo que toma decisões com ostensiva parcialidade, para descaradamente satisfazer interesses pessoais ou corporativos dos detentores do poder político.
Na cleptocracia, a riqueza é arrancada a toda a população e destinada a um grupo específico de indivíduos que se consideram proprietários do poder. Nesses regimes, é comum verificar-se que se concebem programas, leis e projetos sem nenhuma lógica ou viabilidade, excetuando a do cumprimento da função de beneficiar determinados grupos ou, simplesmente, a de desviar dinheiros públicos para os bolsos de uma elite que tem uma insaciável sofreguidão pela riqueza.
A recessão económica e a degradação dos direitos civis acabam por ser as principais consequências deste modelo de encarar a «nossa» riqueza em função da pobreza dos «outros». Em tese, todos os Estados podem tornar-se cleptocratas. No entanto, estaremos sempre a falar de situações verdadeiramente excecionais, onde inexiste o combate dos cidadãos contra tamanhas perversidades, ou seja, a cleptocracia sai vencedora da luta contra o capital social da coletividade.
Nesses casos, é usual dizer-se que se está perante um Estado genuinamente FALIDO. Isto é, um país com um governo ineficaz, que não exerce o poder sobre TODOS, conduzindo a preocupantes taxas de criminalidade e corrupção; consentindo um extenso mercado informal e um poder judiciário inócuo, que se notabiliza por ser fraco com os fortes e forte com os fracos.
Ao contrário do que o leitor terá de início presumido, não pretendo estabelecer uma relação imediata entre PORTUGAL (de hoje) e a CLEPTOCRACIA. Posso pecar por otimismo, mas creio (ainda) não termos atingido semelhante estágio de empobrecimento.
Contudo, estou alarmado e preocupado com o volume e o rumo de muitos sintomas que se vêm acumulando. Atentemos: a narrativa das inevitabilidades parece subsistir com fraco contraditório, remetendo a esperança num futuro melhor para o caixote do lixo. A perceção da existência de monumentais arranjinhos e negociatas parece transformar a maioria dos portugueses em presas - muitos deles desconhecedores do seu estatuto de presa. A atual configuração dos maiores partidos fá-los assemelhar-se a agências de emprego ou agências de colocação. Os grandes grupos económicos e financeiros aparentam ter capturado os partidos políticos, transformando-os em marionetas - ou mesmo fantoches - que agem consoante os seus interesses. A política parece limitar-se aos primários desígnios de institucionalizar o medo e de generalizar o conformismo como agentes facilitadores da aceitação de medidas iníquas e desproporcionadas. Ao mesmo tempo que se pressionam os tribunais e os juízes, amesquinhando a sua função e ridicularizando as suas decisões, o contribuinte vê-se confrontado com a prescrição de burlas e fraudes que arruina(ra)m a nação.
Em resumo, parece prosperar uma restrita casta de protegidos e intocáveis que valida a máxima: «Come-se, muito ou pouco, conforme a rede a que se pertence. Quem não come, mais cedo ou mais tarde, é comido.»
Apetece, por isso, perguntar: e o povo pá? Nem comer às vezes tem! Ao que constará, a populaça estará fora desta cadeia alimentar. Pelo menos, aqueles que conseguem abalar (por não serem presa desejável) ou são regurgitados (por não serem presa tragável). Tentam sobreviver - sabe-se lá com que sacrifícios e com que dificuldades - longe desta Pátria hostil.
José Manuel Alho
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