Opinião. Este é o 3 750 º post!!


Me liga, vai...



Por José Manuel Alho



 


A crise tem forçado opções, caminhos e expedientes. Seja por desespero ou por falta de melhor alternativa, generalizou-se o recurso às (pseudo)milagrosas raspadinhas, amplificado frequentemente pela candidatura ao Euromilhões, sem esquecer as peregrinações a pedir graças aos mais queridos intermediários religiosos.


Num destes domingos, confesso que me indispus com a quantidade e a intensidade dos reptos dos nossos três canais de televisão generalista. Cheguei a uma conclusão: os canais que operam em Portugal usam e abusam do atual estado de carência do povo como se de um país de terceiro mundo se tratasse.


Na verdade, TVI, SIC e RTP montam a tenda e fazem feira aos fins-de-semana para vender a última Coca-Cola do deserto, a 60 cêntimos + IVA. Por aflição ou ganância, o certo é que os tugas sucumbem à tentação e são lestos a ligar para os números de telefone anunciados pelos apresentadores e sempre visíveis no ecrã.


Empobrecendo os mais nobres e estruturantes princípios da Psicologia, dou por mim a degustar a suada persistência dos apresentadores – em alguns casos, bons profissionais – quando se enredam num punhado de tiradas a roçar a vulgaridade: «Mil euros estão garantidos, mas pode ganhar muito mais»; «Eu pegava já no telefone»; «Pode juntar os mil euros a outro tanto e quem sabe ganhar o jackpot»; «Já imaginou o que fazia com este dinheiro? Pagar uma dívida, a água, a luz…»


Estes números começados por 760, utilizados para este tipo de concursos, são serviços de tarifa majorada. Com efeito, as chamadas de valor acrescentado são um grande negócio para os canais de televisão, para a PT, Finanças e para os bancos. Todos lucram. Os canais de televisão e a PT ganham uma percentagem das chamadas. As Finanças ganham o IVA e os bancos ganham uma taxa por cada transação que o vencedor efetua com o cartão de crédito que ganha.


Ademais, e ao contrário do que presumirá o incauto telespectador, os 2 mil ou 40 mil euros jamais servirão para pagar uma dívida, a conta da luz ou a conta da internet. O prémio não é pago em dinheiro. Não há dinheiro nenhum em jogo. O que existe é um cartão de crédito de um banco que o vencedor é “convidado” a aceitar para logo a seguir assinar um documento atestando ter recebido aquele valor, que na realidade não recebeu mas… se não assinar, a nada terá direito.


O inusitado cartão só permite pagar despesas durante um certo período de tempo, impondo uma elevada taxa por cada despesa feita. Se entretanto se esgotar o prazo, sumir-se-á o também saldo que restar. Mesmo nos casos dos prémios convertidos em eletrodomésticos, viagens ou material informático, sabe-se agora que o valor desses prémios estará ostensivamente inflacionado, ultrapassando em 150% a sua real valia.


Os segmentos da população mais fragilizados pela crise – de onde sobressaem os idosos aposentados e os desempregados – mereceriam das entidades a quem incumbe regular estas atividades e fiscalizar a sua realização outro respeito, que ajudasse a conter a sofreguidão de quem pensa ser tolerável valer tudo para lucrar com a desgraça alheia.


José Manuel Alho

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