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Orgulho e Justiça

Por José Manuel Alho
A trasladação dos restos mortais da poetisa Sophia de Mello Breyner para o Panteão Nacional e a atribuição do prémio Grammy Latino ao fadista Carlos do Carmo celebraram, para a posteridade, a entrada no corrente mês de julho.
No passado dia 2, o corpo da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, nascida a 6 de novembro de 1919, foi trasladado para o Panteão Nacional - assinalando-se desse modo a primeira década sobre a sua morte - para uma sala onde estão os túmulos de Aqulino Ribeiro e Humberto Delgado. Depois da assinatura do Termo de Sepultura pelo Presidente da República, pela presidente da Assembleia da República e pelo primeiro-ministro, a urna foi transportada para o interior do Panteão Nacional, onde foi depositada numa arca tumular.
Na oportunidade, note-se que, como forma de homenagear "a escritora universal, a mulher digna, a cidadã corajosa, a portuguesa insigne", e de evocar o seu exemplo de "fidelidade aos valores da liberdade e da justiça" - conforme o inscrito na resolução da Assembleia da República - Sophia de Mello Breyner Andresen é a segunda mulher a ter honras de Panteão Nacional. Com efeito, o parlamento aprovou, por unanimidade, no passado dia 20 de fevereiro, a concessão de honras de Panteão Nacional à escritora que foi também deputada à Assembleia Constituinte, em 1975-1976.
Depois de Amália Rodrigues, a primeira mulher no Panteão Nacional, em julho de 2001, coube agora à fundadora da antiga Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos o merecido reconhecimento de repousar no local destinado «a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade».
Sophia de Mello Breyner Andresen burilou toda uma poesia profundamente influenciada pela sua infância e juventude, por valores como a Justiça, a verticalidade e pelo contacto com a Natureza, muito particularmente com o Mar. Publicou mais de duas dezenas de livros de poesia, devendo ser estimada como uma das maiores e mais eloquentes vozes do universo poético contemporâneo. De igual modo, escreveu também contos, histórias para crianças (“A Menina do Mar”, “A Fada Oriana”, “A Floresta”…), artigos, ensaios e teatro. Entre outros, recebeu o Prémio Camões 1999, o Prémio Poesia Max Jacob 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.
Em todas as suas obras se vislumbra uma sensibilidade que só pode ser apreciada de modo integrado, isto é, pela leitura da sua obra. Notabilizou-se por edificar uma linguagem poética singularmente intimista, mas sem nunca negligenciar os seus vínculos aos ancestrais mitos clássicos. Por isso, e devido à sua estabilidade conceptual, se pode, com propriedade, afirmar que a sua poesia é naturalmente humana e de matiz vincadamente mediterrânica.
Em face da sua acutilância intemporal, recordo estes versos do poema “A paz sem vencedor e sem vencidos”:
«Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos / A paz sem vencedor e sem vencidos / Que o tempo que nos deste seja um novo / Recomeço de esperança e de justiça. / Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos / A paz sem vencedor e sem vencidos»
Fado do nosso orgulho
Carlos do Carmo tornou-se no primeiro português a ser galardoado com um Grammy pelo que, no dia 19 de novembro deste ano, vai receber, no Hollywood Theater da MGM, em Las Vegas, a estatueta na categoria de “Lifetime Achievement”.
O Conselho Diretivo (“Board of Trustees”) da Latin Academy of Recording Arts and Sciences (LARAS) deliberou, por unanimidade, conceder a Carlos do Carmo aquela que é uma das distinções máximas que consagra a obra das grandes referências do panorama musical mundial. Para se ter uma real ideia da dimensão deste prémio, recorde-se que o “Lifetime Achievement” é considerado o mais relevante Grammy, uma vez que premeia toda a carreira musical de um artista. O prémio, atente-se, já foi entregue a figuras como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Elvis Presley, Miles Davis, Bob Dylan, Billie Holiday, James Brown, Tom Jobim, David Bowie, Leonard Cohen e Johnny Cash, entre outros.
Depois de comemorar 50 anos de carreira, Carlos do Carmo, de 74 anos, que já havia sido distinguido com o Prémio Goya da Academia de Artes Cinematográficas de Espanha, pela interpretação de "Fado da Saudade", perpetua-se agora como uma das vozes maiores que canta tão nobre povo. Um orgulho.
José Manuel Alho
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