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Num destes dias de precoce invernia, sucumbi à nostalgia imposta pelo salpicar cristalino da chuva derramada na vidraça. Uma visão martelada, mas colorida da realidade, convida a reflexões usualmente imprevistas. E foi o que aconteceu.
Tinha sido um daqueles dias. Uma daquelas jornadas que nos levam a pensar sobre as razões de fazer o que fazemos, de termos chegado onde chegámos, de sermos quem somos. Valerá a pena? As inquietações que nos apoquentam servirão mesmo para evoluirmos? Poucas horas antes, numa daquelas tertúlias de restaurante, tinha ouvido uma frase que me irritara: «manda quem pode e obedece quem deve». Resumidamente, entendo que a obediência cega e seguidista é uma exigência dos medíocres e uma resposta dos invertebrados. Em complemento, «mandar» é um predicado dos déspotas. Coisa bem diferente é liderar, motivando e mobilizando pelo exemplo que edifica ao ponto de merecer a lealdade dos que desejam fazer o caminho… caminhando. De resto, este tipo de tiradas só serve para desmontar a lógica dos que toleram, com insolente bonomia, a subtração da sua liberdade de pensamento e de expressão.
E foi a partir daí que, sem esforço, alarguei o âmbito da minha indignação ao momento presente deste país que tão tardiamente (re)descobriu a Europa a que, afinal, nunca deixou de pertencer. Com efeito, Portugal paga ainda o insustentável preço de muitas décadas de uma ditadura castradora e cínica, com sequelas que ameaçam perdurar para além do tempo estimado. Dirão alguns que o povo está abúlico e estranhamente anestesiado. A maioria defenderá que - socorrendo-se até da célebre garantia de Pinheiro de Azevedo - «o povo é sereno». Para mim, o povo é manso. E considero-me um pacifista.
Tal como JDB, o povo português parece, há demasiado tempo, trancado em si mesmo. Desde 2011, vivemos uma espécie de coma profundo, do qual ainda não acordámos. Sentimos que as nossas “forças motoras”, i.e., a nossa intervenção cívica e política pouco ou nada determina neste chorrilho de pseudoinevitabilidades, onde a alternativa, pura e simplesmente, não existe – afiançam alguns. Nesta encruzilhada sem saída aparente, tudo o que temos parece resultar de uma tal “assistência” externa que confia na perpetuação da nossa inercia.
Uma breve análise da história de Portugal exporá uma evidência que não exigirá muito para ser fundamentada: o povo, aquela massa humana anónima mas vital ao devir da coletividade, foi frequentemente negligenciado, apoucado e incontestavelmente maltratado. Nós enformamos aquela gente que não merecia a dolosa pena prescrita por consecutivas castas de decisores com altas funções de Estado. A História regista e exalta, com refinada ironia, um significativo conjunto de repetições que ajudam a definir uma nação.
Atente-se à situação atual. Não é a primeira vez que neste retângulo à beira-mar plantado a impunidade se trivializou, que a corrupção se generalizou, que a injustiça se banalizou e, o mais grave, que se imputou ao povo a exclusiva obrigação de tudo suportar, aliviando e protegendo (sempre) os mais fortes.
Neste escafandro
Mas, de tanto sofrer, concedo que o povo esteja anestesiado. Por isso, veio-me à memória o caso do jornalista Jean-Dominique Bauby (JDB), de 43 anos e editor da revista Elle. A 8 de Dezembro de 1995, um acidente vascular cerebral (AVC) mergulha o jornalista num coma profundo. Ao acordar, todas as suas funções motoras estão irremediavelmente comprometidas. Sofrendo do que a Medicina denomina síndrome "locked-in", não consegue mexer-se, falar, nem sequer respirar sem assistência. Estava trancado em si mesmo. No seu corpo inerte, apenas o olho esquerdo mexe. E esse olho passa a ser a sua ligação com o mundo, com os outros, com a vida. Pisca-o uma vez para dizer "sim" e duas para dizer "não". Com o olho, indica as letras do alfabeto, formando palavras, frases, páginas inteiras. Com o olho, escreve o livro "O escafandro e a borboleta", cujas frases memorizou todas as manhãs, durante semanas, antes de as ditar. Dez dias após o livro ser publicado, Jean Dominique-Bauby (JDB) morreu. Seguiu-se o filme baseado no livro protagonizado por Mathieu Amalric e realizado por Julian Schnabel, que conquistou o prémio de melhor realizador em Cannes 2007.
Tal como JDB, o povo português parece, há demasiado tempo, trancado em si mesmo. Desde 2011, vivemos uma espécie de coma profundo, do qual ainda não acordámos. Sentimos que as nossas “forças motoras”, i.e., a nossa intervenção cívica e política pouco ou nada determina neste chorrilho de pseudoinevitabilidades, onde a alternativa, pura e simplesmente, não existe – afiançam alguns. Nesta encruzilhada sem saída aparente, tudo o que temos parece resultar de uma tal “assistência” externa que confia na perpetuação da nossa inercia.
Apesar de o escafandro onde nos meteram pesar qual alma aprisionada a um corpo finito, cabe-nos protagonizar o momento da superação onde não alienamos o desígnio de afirmar o direito à dignidade, ao respeito, à justiça e à solidariedade. Por mais escola que faça a máxima «não me demito, não te demito» ou que perigosas avenidas se rasguem para a fluente firmeza dos populistas, é em nós que reside o poder e a força necessários para nos rebelarmos contra esta narrativa austeritária. Pisquemos o olho ao futuro.
José Manuel Alho
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