Carta ao Pai Natal.

Querido Pai Natal,


Chamo me José – Zé para ti – e tenho 41 anos.


Escrever-te uma carta não é fácil! Lá no fundo, isto de convencer um senhor velhote que fomos bons meninos durante o ano e que merecemos os presentes que suplicamos, requer uma pitada de disciplina polvilhada com uma colher de sopa de imaginação.


Prometo: vou esforçar-me por escrever uma carta que gostes mesmo de ler. Bem sei que estás muito atento e mesmo que eu diga que, nas competições europeias, torço também pela vitória do FC Porto ou do Sporting, tu sabes que não. E se há coisa que não quero é zangar-te ao ponto de pores a minha carta de lado sem nunca vires a saber o que te pedi. Mais eu juro que para o ano vou ser (ainda) melhor!


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Estou a conversar um bocadinho contigo porque sei que a maioria dos meus amigos começa logo a escrever os pedidos. Estou crescido. Já sei umas coisas. Por isso, vou dizer-te que me tenho esforçado muito na escola: procuro dar aulas diversificadas e cativantes e que, sempre que possível, deixo a minha mulher ver os jogos do Benfica comigo. Porque sei que não vais contar a ninguém, que és um tipo de confiança, às direitas, confesso-te que acho que há reuniões, papéis e autoritarismo a mais. Mas fica só entre nós, ok?


Chegámos àquela altura em que já me dás o benefício da dúvida e começas a pensar com as tuas barbas “este melga é especial. Deixa cá ler a carta até ao fim!”


Por saber que és uma pessoa muuuiiito misteriosa – imagina que até há quem diga que não existes! – gostaria de saber algumas coisas a teu respeito. Mas não leves a mal. Não vou ser muito intrometido. Aí, no Círculo Polar Ártico, também organizas um sorteio da Fatura da Sorte? O Santa Claus’ Main Post Office já tem algum programa informático para registar os NIF? As tuas renas continuam atinadinhas ou já descobriste um ou outro sinal exterior de riqueza numa delas?


Fica calmo. Agora, só vou pedir o que faz falta. O país está em crise e bem sei que tens de poupar alguns tostões para dar presentes a mais pessoas.



Por isso, ou falas com os senhores da Câmara Municipal, pessoas que eu aprecio e apoiei, para começaram a dar mais atenção à Educação ou deixo de acreditar nos teus poderes! Li o último número do “Correio de Albergaria”, o verdadeiro jornal da nossa terra, e no capítulo dos «PRINCIPAIS INVESTIMENTOS», sabes quantas benfeitorias estão lá para a Escola pública do município? Zero!


 



Neste Natal, queria um presente muito especial: desejava que em todo o mundo houvesse Paz e Amor, mas sei bem que isso é impossível de realizar... pelo menos, desde que o Bruno de Carvalho foi para presidente do Sporteim e o engenheiro José foi para Évora, onde também já escreve as suas cartitas. Como a Paz e o Amor estão fora de questão, vou ter que optar pelos bens materiais, coisa que eu não queria nada. Mesmo nada…


Para começar, queria que este ano a minha prenda de Natal fosse um brinquedo muito divertido que vi na televisão. Não, não é nenhuma daquelas mariquices dos bonecos do filme "Os Vingadores", “Hot Wheels” ou dos “Transformers”.
Nem vou ao ponto de te pedir o lançador de granadas XM-25, por sinal, uma arma com uma força até 300% mais potente que uma arma comum, que ontem vi no Telejornal e que é usado pelos americanos para rebentar com os terroristas. O que eu queria era, pelo menos, um computador para cada sala de aula dos meninos da Primária. Mas preciso muito que me entregues o brinquedo ainda neste milénio para eu fazer uma surpresa aos meus colegas lá da escola. Sabes, daqui a umas centenas de anos os computadores já terão sido ultrapassados e como os meus amigos estão sempre a dizer que lhes faz falta e que já não podem continuar a pagar para trabalhar - até porque já lhes cortaram tantas vezes o salário – peço-te, do fundo do coração, para mexeres uns pauzinhos. E acho que é mais barato do que uma ciclovia. E tu?


Mas os bens materiais não são tudo na vida. Não são eles que trazem felicidade. “O dinheiro é que ajuda!” – diz uma coleguinha muito bem disposta com quem desabafo sempre que vejo o recibo do meu vencimento. Por isso, ou falas com os senhores da Câmara Municipal, pessoas que eu aprecio e apoiei, para começaram a dar mais atenção à Educação ou deixo de acreditar nos teus poderes! Li o último número do “Correio de Albergaria”, o verdadeiro jornal da nossa terra, e no capítulo dos «PRINCIPAIS INVESTIMENTOS», sabes quantas benfeitorias estão lá para a Escola pública do município? Zero!


Achas que eles dão pouca importância ao Conhecimento?


Agora... fiquei na dúvida. Mas considero muito os senhores António Loureiro e Delfim Bismarck. É gente séria, que já tem feito muitas coisas boas. Vamos ver o que 2015 nos trará. Foi uma pena aqueles remoques que andaram no Facebook. Sinceramente, gostei daquela tirada da Diretora: «A política do vale tudo só é praticada por quem não vale nada politicamente». Ganda malha!


Como as filas para as farmácias do concelho tarde se extinguiram – consta que as reposições de stock bateram recordes! – também te queria pedir que desses o teu contributo à mudança iniciada há um ano. Não. Não quero que tomes partido. A política não é para ti, eu sei. O que eu gostava era de ir à Assembleia Municipal, nas sessões abertas ao público, e poder sentar-me. Sabes, fui à última, cheguei antes da hora e tive de estar mais de duas horas em pé, numa sala com insuficiente ventilação. Não aguentei mais. Vim embora. E havia pessoas nas escadarias! Alguém me dizia, para desculpar tão imprevisto desconforto, que nem sempre vem «tanta gente». Mas eu acho que os cidadãos, para poderem participar mais ativamente na coisa pública, devem ter SEMPRE boas condições para acompanharem a ação dos seus eleitos. E não só em tempo de eleições. Não achas? Vê lá o que é que se pode arranjar…


Bem, reparo agora que a carta vai longa e também já começo a ficar cansado. Tenho uns testes para corrigir.


Em resumo, quero que saibas que gosto muito de ti. Tu és bué da nice. Lol! Mas se não me trazes o que te peço, já não gosto de ti e quero que as renas te dêem uma grande marrada e tu caias pelas chaminés abaixo e que te lixes todo.


Por agora, muitos beijinhos para ti e para as tuas renas. 


José Manuel Alho

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