Sobre os incêndios no concelho de Albergaria-a-Velha.


A praga dos incêndios – Tudo começou pelas 06H49 (!) do dia 1 de abril quando, em Nogueira (Sever do Vouga), deflagrou um incêndio florestal que viria a alastrar-se a Albergaria. Contando com ajuda decisiva de ventos fortes, o fogo lograria ter múltiplas frentes ativas, obrigando a considerável alocação de meios humanos e materiais: mais de 420 bombeiros, apoiados por 120 viaturas e dois helicópteros pesados de combate. De Vila Nova de Fusos, passando por Valmaior, até à Senhora do Socorro, o pânico e a aflição ganharam terreno deixando esta Páscoa inapelavelmente marcada pelos funestos aromas das chamas.


 


Falta estratégia – Sabe-se há muito que os incêndios serão o fator de maior perda de valor da floresta em razão quer do risco que introduzem no investimento, quer da degradação ambiental que impõem. Na verdade, os incêndios florestais são tidos como um dos fatores com maior peso na deterioração da qualidade do meio ambiente dos nossos ecossistemas. Ainda que nem sempre materializada com a desejada eficácia, a importância atribuída à avaliação de riscos de fogos florestais tem vindo a aumentar. Infelizmente, Portugal é um dos países que (ainda) apresenta maiores problemas em relação aos incêndios florestais na Europa.


Contudo, a falta de estratégia e de investimento para a dinamização e valorização do espaço rural faz com que se verifique uma propensão crescente para a desertificação humana dos espaços, originando precariedades várias. Complementarmente, verifica-se a diminuição da atividade agrícola, e da mão-de-obra rural, a divisão das propriedades em pequenas parcelas, com a correspondente pluralidade de proprietários e abandono de propriedades, que potenciam toda a sorte de perigos.


Por tudo isto, a prevenção e a valorização do espaço rural e florestal são fatores crescentemente inseparáveis em matéria de defesa da floresta contra os incêndios.


 


Albergaria condenada aos caprichos das chamas? – Todos os anos, o nosso concelho é severamente fustigado pelos fogos florestais. Em consequência, surge a interrogação: estaremos perante uma inevitabilidade? Albergaria terá mesmo de, todos os anos, se vergar à mórbida convivência com os incêndios?


Não ignorando a perversa influência da ação criminosa, que cabe às autoridades judiciais investigar e punir, há riscos e circunstâncias que podem (e devem!) ser minorados. Desgraçadamente, continuamos a dar grande realce aos meios de intervenção de grande escala como autotanques de grande capacidade e hidroaviões, sendo negligenciada a fase da prevenção e da rápida intervenção. Defendo que os equipamentos de combate aos incêndios deverão ser o último recurso, a acionar somente quando a prevenção e as equipas de primeira e rápida intervenção fracassassem na sua missão. Enquanto imperar esta lógica de atuação, Albergaria continuará a assistir a grandes catástrofes florestais.


Exige-se maior e melhor articulação entre todas as autoridades que interagem na regulação deste setor específico. A Câmara Municipal deve ser (muito) assertiva na definição de orientações para a proteção e promoção da área florestal do concelho, avaliando, em permanência, a nossa vulnerabilidade aos incêndios florestais e monitorizando a implementação de medidas e ações de curto, médio e longo prazo, no âmbito da prevenção, do combate e da defesa da floresta contra os incêndios florestais.


Também aqui voltamos ao gasto mas sábio chavão: AGIR em vez de REagir.


 


Turismo de catástrofe – Com ostensiva inconsciência, muitos portugueses expõem-se ao ridículo. E até mesmo ao perigo. Enquanto procurava avaliar racionalmente a situação, adotando posturas conducentes à salvaguarda de alguns bens, fui inusitada testemunha do corrupio de curiosos e mirones que vicejaram para incredulidade dos mais avisados. Munidos de uma singular parafernália de gadgets, a denunciarem estranhas opções em tempos de crise, cedo ocuparam qualquer réstia de área disponível. Abandonando as viaturas em rotundas e passeios, pavonearam-se com os filhos, muitos deles de tenra idade, como quem apreciava um qualquer espetáculo de exceção. E valeu quase tudo, para exasperação de bombeiros e policiais. E com o mesmo fulgor com que chegaram, abandonaram a rua da Senhora do Socorro denunciando uma ocupação selvagem do espaço público. Não conhecendo carteira ou condição social, este comportamento evidencia uma degradação moral e cívica que me entristece e preocupa. Há quem pareça dedicar-se a este turismo de catástrofe, apreciando doentiamente a tristeza e a aflição alheias, forçando o contacto com uma qualquer câmara de televisão. Mas se nos lembrarmos que é este mesmo povo que escolhe e decide quem nos (des)governa, talvez fiquemos a perceber melhor o trágico destino que temos vindo a gizar para as gerações vindouras.

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