O debate do estado da Nação.

Cumpriu-se a liturgia do costume. O governo sucumbiu à tentação de fazer a narrativa de quem encontrou a chave do éden e a oposição, com pequenas variações, protagonizou o frete a que nos habituou. Como diria Fialho de Almeida, foi «tudo a meio pau e a meia lágrima (...)».


Mais um debate parlamentar que, por exemplo, não contribuiu para atacar ou denunciar a promiscuidade entre o poder político e o poder financeiro. Veem-se rostos antigos a perseverar em contumazes transumâncias, bem ao jeito de quem subiu na vida a jogar nem dois tabuleiros ao mesmo tempo, com a medonha desfaçatez de quem se julga impune.



De resto, os expedientes da prática política entretanto cristalizada: martelar os números para que reflitam aparências efémeras, polvilhadas com rotineiro chico-espertismo e tarimbada esperteza saloia na tola esperança que, se fossem exportados, até equilibrariam a nossa balança comercial.


Socorro-me de Miguel Torga (in Diário, vol. XVI) para registar que «Continua o tráfego de consciências na feira política nacional. Compram-se e vendem-se convicções por todos os preços. Os jornais denunciam, o povo comenta, mas no dia seguinte chega a notícia de nova transação. Depois de quase meio século de ditadura, o país, mal refeito do pesadelo passado, agoniza sob nova opressão, ainda mais tenebrosa. A arbitrariedade e a perversão policial de outrora deram lugar ao terrorismo de Estado. Agora, são os legitimados detentores do poder que oprimem e perseguem. A peitar sem rebuço os cidadãos venais, ou a talar discricionariamente o território dos legítimos interesses dos outros, é que condicionam os limites da nossa liberdade.»

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