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Como tantos portugueses, aproveitei as férias par mudar de rotinas, ver outras paisagens e alcançar novos horizontes. Nestas circunstâncias, o merecido descanso serve também para bendizermos o que temos, relativizando provisórias angústias existenciais. Num desses dias de preguiça consentida, dei por mim a mirar um homem que, munido de um arame forjado para a função, escarafunchava, num contentor, por lixo que lhe fizesse diferença.
Esgaçado por tamanha indignidade, dei por mim a recordar, quase em jeito de oração, os versos de José Carlos Ary dos Santos, in “A liturgia do sangue”: «Em nome dos que choram/ Dos que sofrem/ Dos que acendem na noite o facho da revolta/ E que de noite morrem/ Com a esperança nos olhos e arames em volta./ Em nome dos que sonham com palavras/ De amor e paz que nunca foram ditas./ Em nome dos que rezam em silêncio/ E falam em silêncio/ E estendem em silêncio as duas mãos aflitas./ Em nome dos que pedem em segredo!/ A esmola que os humilha e destrói/ E devoram as lágrimas e o medo/ Quando a fome lhes dói./ Em nome dos que dormem ao relento/ Numa cama de chuva com lençóis de vento/ O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste/ Filho de Deus que nunca mais nasceste/ Volta outra vez ao mundo!»
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