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António Costa logrou alcançar o que há um ano se tinha por impensável: a derrota. Com uma campanha tristemente marcada pelo amadorismo, acumulando erros e falhas grosseiros, acabou engolido pela narrativa da coligação PaF. O Partido Socialista parece tragicamente perdido em combate, descaracterizado e envelhecido. Não se abriu à sociedade que diz querer defender, evidência tangível na ausência de quadros de valia. Também no PS a política deixou de estar entregue aos melhores.
Ao contrário do que a maioria da opinião publicada tem arguido, entendo que o PS não se radicalizou à esquerda. O problema do PS foi não ter sido capaz de convencer e de arregimentar a esquerda. O aumento percentual registado pelo BE – o outro vencedor da noite – se transferido para António Costa, teria feito pender a tendência de vitória para o Largo do Rato. De facto, poucochinho. Manifestamente.
Por isso, há que louvar o trabalho desenvolvido pelo cérebro brasileiro André Gustavo que, num rasgo de inteligência, admitiu «quando estávamos (n.d.r. PaF) num momento difícil, soubemos estar quietos.»
Sem programa e medidas quantificadas, a coligação – que resistiu aos irónicos trocadilhos de quem viu naquela abreviatura um maná de fragilidades – ousa fazer uma campanha centrada ora no passado de Sócrates, ora no programa de governo socialista, conseguindo furtar-se ao julgamento criterioso dos últimos quatro anos de governação. A estratégia comunicacional revelou-se tremendamente eficaz. Por isso, há que louvar o trabalho desenvolvido pelo cérebro brasileiro André Gustavo que, num rasgo de inteligência, admitiu «quando estávamos (n.d.r. PaF) num momento difícil, soubemos estar quietos.»
O que significa ser esquerda ou direita no mundo atual? Por que é que a esquerda é boa e a direita é má, e vice-versa? A perplexidade do exemplo grego acentua a premência da reflexão. Para os apaniguados da ciência política clássica, o Syriza será um partido da extrema-esquerda que hoje aplica uma política de direita. No entanto, no norte da Europa, há países onde a direita governará bem mais à esquerda do que qualquer esquerda no sul do velho continente. Terá chegado a hora de repensar a nomenclatura política?
A abstenção voltou a bater recordes. Nem a crise, nem o maior número de alternativas levaram mais portugueses às urnas. Dos 9.682.369 portugueses inscritos para votar, 43,07% não foi às urnas. Este passou a ser o valor mais alto de sempre da abstenção em eleições legislativas. Uma tragédia também empolada pela não atualização dos cadernos que eleitorais que aproveitará aos mesmos do costume.

Joana Amaral Dias despiu-se na “Cristina”. Arrecadou 20.690 votos. A revista rondará os 70.000 exemplares de circulação impressa. Se todos os leitores daquela publicação tivessem votado na Joana, o Agir/PTP/MAS estaria em clima de euforia. Conclusão: mesmo num país em que a política é feita de filmes e de pantomineiros, há métricas. E níveis.
Um terço dos lugares no Parlamento vai ser ocupado por mulheres. Em rigor, 76 deputadas em 230 lugares. Em 2011, haviam sido eleitas 62 mulheres, quase 25%. Neste país de cultura predominantemente machista e de raízes patriarcais, a mulher parece assim ganhar, ainda que a um ritmo estranhamente compassado, mais espaço na política nacional.
Outra surpresa foi o PAN, o grande vencedor da noite entre os pequenos partidos. O Pessoas-Animais-Natureza (PAN) elegeu um deputado pelo círculo eleitoral de Lisboa. Logo após as eleições, alguém confidenciava: «tantos partidos cheios de autênticas bestas e só um foi reconhecido como defensor dos animais! Bom trabalho do PAN! Até a tourada pode vir a ser outra!»
«Portugal inteiro há de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
Morra o Dantas, morra! Pim!» - José de Almada Negreiros, Poeta d'Orpheu, Futurista E Tudo.
Por Albergaria, a Assembleia Municipal chumbou a concessão da estação ferroviária. Recorde-se que a edilidade havia chegado a acordo com a IP Património, a antiga Refer, para a cedência daquela estação da Linha do Vouga por 20 anos. O contrato terá sido recusado pela bancada do PSD, uma posição que o presidente António Loureiro classificou de «lamentável». Garante-se agora que, com o chumbo, Albergaria-a-Velha poderá perder um investimento de cerca de 500 mil euros. Contudo, no número anterior deste jornal, detalha-se que «a autorização foi negada com 12 votos contra da bancada do PSD, 3 abstenções, sendo duas do PS e uma do deputado do CDS, António Letra e 11 a favor da bancada do CDS. Esclarece-se que, caso o deputado do CDS tivesse votado a favor, ocorreria um empate possível de ser ultrapassado com o voto de qualidade do Presidente da Assembleia Municipal (…)»
Se assim foi, a dúvida instala-se. Poder-se-á ter uma de duas interpretações. A benigna, que aponta para a existência de pluralidade de opiniões no seio do CDS-PP/Albergaria, de que será expoente máximo António Letra no cumprimento do seu dever de escrutínio, ou a menos simpática, que assaca a António Loureiro a responsabilidade de nem ser capaz de mobilizar ou convencer os seus correligionários quanto à bondade das suas propostas. E só o tempo poderá aclarar o que agora não se percebe. Aguardemos.
José Manuel Alho
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