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Com ou sem qualquer
estremecimento da consciência?

O trágico acidente ocorrido em França, envolvendo doze emigrantes portugueses, enlutou uma nação ávida de boas notícias. Um exemplo paradigmático da funesta tendência que há muito revelamos de fazer negócio à custa da fragilidade do nosso semelhante. Uma severa incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro em favor de um nacional desenrascanço de vistas (muito) curtas. Um despacho – por vezes, elogiado - que descura normas, preceitos e protocolos, que desprezamos com tonta prontidão em nome de uma sorte usualmente madrasta.
Em face do acontecido, devemos exigir do poder político, e das autoridades que lhes estão subordinadas, um rasgo de preocupação com a segurança dos nossos concidadãos emigrados, muitas vezes, rechaçados por um país eternamente em crise. Espera-se um plano de ação concreto, mensurável e exequível de apertada monitorização do transporte de emigrantes. Uma ação que, pelo seu cariz necessariamente transnacional, reprima exemplarmente condutas e práticas negligentes, nada consentâneas com os níveis de civilização a que há muito nos obrigámos.
Os recentes atentados terroristas de Bruxelas, mais do que evidenciar o potencial instigador dos lunáticos que os patrocinam, desfazem precipitadas conclusões dos que cedo viram nos refugiados a origem de todos os males. Uma vez mais, cidadãos nacionais – no caso, belgas – sacrificam as suas próprias nações. Importa, por isso, refletir sobre o modo como as grandes cidades europeias acantonaram em bairros, entretanto impenetráveis à ação das forças da lei, comunidades com outros credos e origens.
Assoma-se o imperativo de uma abordagem multicultural, que combata guetos que, invariavelmente, se transformam em fatais ninhos de vespas. De igual modo, a Europa não pode – nem deve! – prescindir da sua matriz social, cultural e política em nome de uma tolerância a práticas e valores impostos do exterior sob pena de se ver confinada a algo que nada tem a ver com a sua natureza identitária. Os que procuram a Europa devem aceitar integrar-se num tronco comum de valores e comportamentos ocidentais. Quem, legitimamente, não vir grande vantagem nessa integração, deve, com vítrea naturalidade, encarar a possibilidade de permanecer onde está.
Tenhamos fé que este mundo saberá encontrar soluções e caminhos pacíficos de equilíbrio. Ainda que Miguel Torga tenha, em tempos, alertado: «Mas, francamente: fé em quê? Num mundo que almoça valores, janta valores, ceia valores, e os degrada cinicamente, sem qualquer estremecimento da consciência? Peçam-me tudo, menos que tape os olhos...»
JMA
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