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Ao longo do século XX, a evolução das cidades esteve frequentemente relacionada com novas formas de mobilidade - os elétricos, o elevador, o automóvel entre outros. Registou-se também um processo de concentração populacional, que contribuiu para a generalização de um padrão de ocupação horizontal, com ostensiva ausência de planeamento dos sistemas de transporte e circulação.
Neste início do século XXI, o até então venerado transporte individual passou a ser o grande culpado do congestionamento das cidades, do aumento das emissões de CO2 e do stress nos condutores e, no limite, em muitos casos, deixou até de ser o símbolo do aumento da qualidade de vida. E é neste quadro que as cidades tentam hoje acomodar uma série de novas exigências, nomeadamente o retorno aos centros urbanos e requalificação dos mesmos, a ligação entre o centro da cidade e as zonas periféricas, a necessidade de garantir aos cidadãos fluidez de movimentos, com segurança e maior conforto nas deslocações.
No caso do concelho Albergaria, entendo que estamos confrontados com a necessidade de garantir redes de comunicação simples mas bem articuladas, porventura com Interfaces de pequena/média dimensão que aproximem as freguesias periféricas das novas centralidades que o concelho já detém.
Quando aludi ao regresso aos centros urbanos e à sua requalificação, cumpre aqui observar criticamente a obra de Regeneração Urbana da Alameda 5 de Outubro, inicialmente estimada em 1 785 839,54 euros, que, na minha modesta opinião, nos obriga a concluir que ficámos a meio de qualquer coisa.
E isto porque estivemos confrontados com um momento de opção, de escolha que marcaria (e marcará!) gerações. Por isso e em razão dos constrangimentos na altura existentes, muito por força da intervenção externa, era crucial edificar um equipamento que exponenciasse as possibilidades de uso e de apropriação numa perspetiva duradouramente inclusiva.
Parece indesmentível que a apreciação final coloca a nu disfunções e erros vários, que merecem vigorosa crítica pública. De igual modo, cumpre lamentar que a intervenção realizada nesta zona simbolicamente nevrálgica tenha excluído a área envolvente à estação ferroviária, propriedade da CP – Comboios de Portugal.
Parece adquirido que o projeto foi executado nas acessibilidades e infraestruturas. Em abono da verdade, a intervenção na Praça Alameda 5 de Outubro, bem como na rua Almirante Reis, Avenida Bernardino Máximo Albuquerque e Praça Ferreira Tavares, ainda não contemplou a edificação dos equipamentos previstos inicialmente para o interior da praça, nomeadamente o edifício destinado ao café, o palco, os pavimentos e até algum mobiliário urbano.
Numa análise mais fina, cumpre ainda assim destacar alguns méritos que resultam da intervenção levada a efeito: a Alameda 5 de Outubro sofreu uma óbvia beneficiação desde a frontaria do CineTeatro ALBA até ao edifício Paços do Concelho; o perfil transversal da avenida, faixa de rodagem é de 7,00m menor dimensão que a anterior, ajudou à redução de velocidade. E com a redução da velocidade da circulação automóvel, garantiu-se a redução das emissões de CO2. As zonas de circulação pedonal e estacionamento automóvel aumentaram. Extirparam-se as grandes barreiras arquitetónicas e melhorou-se a maioria das acessibilidades, mormente para os nossos concidadãos com mobilidade condicionada. Corrigiram-se também os constrangimentos existentes nas infraestruturas de águas pluviais, abastecimento de água e saneamento. O consumo energético da atual solução, com luminárias em LED, é de aproximadamente um terço do anterior com luminárias de vapor de sódio. Os candeeiros com luminárias LED possuem reguladores de fluxo, estando prevista a redução de 50% da intensidade luminosa no período que se considera sem movimento, entre as 2 e as 6 horas.
Mas há reparos que importa imputar: a obra não conseguiu, por não ter sido feita na sua totalidade, converter-se numa efetiva mais-valia que potenciasse a atratividade e reforçasse a competitividade. O facto de a intervenção nos arruamentos, que até permitiu ganhar mais 15 % de lugares para estacionamento, a par da criação de parques para estacionamento de velocípedes, não foi na quantidade requerida pelas necessidades, nem consoante as dimensões e o conforto desejáveis aos normais movimentos de acesso e saída das viaturas (ex.: a amplitude de abertura de portas concedida é extraordinariamente reduzida). O recurso ao confinamento dos passeios, com a verticalização de barreiras metálicas, não se afigura duradouro nem esteticamente feliz. Por fim, o mais grave: na criação, à falta de condições para fazer mais e para fazer melhor, de numerosas superfícies verdes na emblemática Praça como solução de último recurso, que praticamente mais não serve do que tapar insanáveis descontinuidades que o resultado final da obra denuncia. Ao cidadão minimamente esclarecido e informado, o que ali está mais não faz do que refletir – e perpetuar - as diferenças, também elas incuráveis, entre as prioridades de quem adjudicou inicialmente a empreitada e as opções defendidas por quem mais tarde herdou a obra.
Infelizmente e ao contrário do que sempre tive por avisado e consequente, a Praça Alameda 5 de Outubro aparenta ser um equipamento inerte, um ponto de passagem a caminho de qualquer coisa que não gera qualquer vínculo com os cidadãos.
E não menorizemos este dossiê até porque a questão das praças – mormente as centrais – nas nossas cidades ganhou renovada acuidade na medida em que passou a denunciar o modo como o poder local pondera e define as suas funções. Afinal, como é que as nossas Câmaras Municipais – ainda que espartilhadas pelos constrangimentos financeiros do passado recente - encaram e concretizam a sua intervenção em matéria tão determinante quanto esta?
No caso albergariense, a resposta cinge-se a uma obra inacabada, com descontinuidades várias e um futuro carregado de indefinições que são credoras da maior preocupação.
Um dia, em entrevista ao jornal PÚBLICO, Manoel de Oliveira alertou: «As cidades confundem-se todas: a gente chega a uma cidade e já não sabe onde está. É tudo igual em toda a parte.»
Gostaria de concluir afirmando o meu lirismo traduzido na esperança de que esta cidade, com as suas polaridades que até resultam de hábitos pitorescos dos tempos antigos, venha a impor-se pela diferença e pela capacidade de inovação ao ponto de empolgar agentes económicos, culturais e artísticos. Em resumo, Albergaria tem de saber reinventar-se para não sucumbir ao triste fado de vergar-se ao estatuto de uma cidade dormitório.
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