Do caos em que mergulharam os Professores

Das praxes ao caos


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Por José Manuel Alho


 


As praxes. O ministro da Ciência e Ensino Superior pretende que as instituições de ensino superior deixem de legitimar as comissões de praxe e, em alternativa, recomenda programas de receção aos novos alunos centrados na cultura e na ciência. Dos reitores, a primeira reação foi estranhamente frouxa, sem grande entusiasmo, repetindo à exaustão que, no essencial, o importante é combater os abusos. Infelizmente, a praxe, tal qual a conhecemos, configura um abuso por se ter vindo a assemelhar a um repositório de práticas e lógicas medievais, que exaltam a imbecilidade e a obediência canina. E a Universidade não pode, em circunstância alguma, consentir tão degradante conotação a menos que esteja também ela subjugada pelos ditames das comissões de praxe…


 


Como sempre acontece quando o Verão se aproxima do fim, a realidade devolve-nos, neste mês de setembro, ao mundo que enfrentamos – ou suportamos? – no resto do ano. O país e o mundo impõem a sua lei que reduz a mínimos simbólicos a ilusão, a esperança e, acima de tudo, o sonho. Sinto-me assim. Por isso, escolhi socorrer-me de Baptista-Bastos quando vincou: «Pessoalmente, sei muito bem do que falo. Quando a nefasta melancolia me invade vou-me aos livros escritos por aqueles que nunca desistiram. Recordo, com frequência, aqueles, todos aqueles que me ensinaram a pensar no sonho. “Pelo sonho é que vamos”, escreveu António Ramos Rosa. Pelo sonho, pelo sonho. E o país com que sonhamos está em nós. Podem fazer-nos as maiores indignidades. Pelo sonho é que vamos.»


 


O sonho e a ilusão que, por exemplo, neste início de ano letivo, deveriam inspirar o regresso às aulas de alunos e professores. Apesar da aparente tranquilidade, subsistem sérios e múltiplos problemas que, a qualquer momento, ameaçam estilhaçar tão instável filigrana. Confirma-se a saga das reformas e das contrarreformas, a celebrar o experimentalismo que tem esgaçado o nosso sistema educativo. Um caos. Daí que falte rotina e previsibilidade a um setor violentamente massacrado por interesses e tendências usualmente cavernosos. Persistem iniquidades e preconceitos vários a dinamitar um terreno que já conheceu melhor céu. Nesse particular, o 1.º Ciclo rompe(u) com todos os limites do defensável!


 



De forma acéfala, impunemente desprovida de ponderação e razoabilidade, criam-se hordas de militantes reconvertidos que, à bruta força, querem impor a nova caterva de nomenclaturas, procedimentos e soluções. Uns aceitam integrar “a mudança” – e quantas crueldades já se fizeram camufladas de mudanças! – por receio de a sua relutância poder vir a indispor a corrente momentaneamente em voga. Outros, que ainda não se demitiram de refletir sobre a real utilidade e impacto das novidades, são logo rotulados de «forças que resistem e rejeitam a mudança», primeiro passo para a exclusão sumária.


 



Por ser tão visceralmente português, a implementação das reformas e contrarreformas angaria, com patológica facilidade, adeptos que a elas aderem com a mesma atitude medieval que anima muitas das praxes nas nossas universidades. De forma acéfala, impunemente desprovida de ponderação e razoabilidade, criam-se hordas de militantes reconvertidos que, à bruta força, querem impor a nova caterva de nomenclaturas, procedimentos e soluções. Uns aceitam integrar “a mudança” – e quantas crueldades já se fizeram camufladas de mudanças! – por receio de a sua relutância poder vir a indispor a corrente momentaneamente em voga. Outros, que ainda não se demitiram de refletir sobre a real utilidade e impacto das novidades, são logo rotulados de «forças que resistem e rejeitam a mudança», primeiro passo para a exclusão sumária. E assim se contam espingardas e se separam as águas, sem cuidar do destino a que cada caminho nos leva(rá).


 


Daí que há muito defenda que se restitua às escolas a democraticidade perdida. Urge resgatar a Escola do colete de forças em que foi metida, devolvendo a colegialidade que melhores mecanismos de escrutínio garantirá. De igual modo, a tutela deveria ser a primeira interessada em desencadear, de uma vez por todas, o mais vigoroso ataque à burocracia estéril e conceptualmente atávica que suga o melhor do ensino – a atividade, em sala e aula, com os alunos – penalizando fortemente quem desvia os docentes da sua missão, mergulhando-os em poços onde são encharcados em tutoriais visando a mais viscosa palermice.


 


Mas isto está estudado desde tempos imemoriais. Afundar os professores em pântanos da mais profunda sandice burrocrática para que não possam erguer a cabeça e ver o horizonte de tudo que existe e acontece em seu redor é uma habilidade que, com prejuízo das relações humanas, se tem distinguido por desprezar a mobilização em favor da imposição. Afinal, a quem interessará inundar os docentes em papeladas mil para que não possam levantar a cabeça?


 


Mesmo no atual contexto de claustrofobia democrática na maioria dos agrupamentos escolares, cumpre às autarquias e às associações de pais, com assento nos Conselhos Gerais, identificar e reprimir exemplarmente abordagens tão perversamente desvirtuadas da função docente. Assim saibam (e queiram) estar à altura das suas responsabilidades.


José Manuel Alho

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