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A pouca vergonha que virou pesadelo
O preço da água e as campanhas eleitorais. Não seria de estranhar. A água é um bem essencial e daí que, fruto até de mutações ambientais, se tenha afirmado a consciência da sua finitude. E o que é essencial e, simultaneamente, finito, tende a ser caro. Em Albergaria, como aqui tenho repetidamente vincado, os tarifários atingiram proporções que merecem apertado escrutínio.
Em setembro de 2013, foi prometida por aquele que viria a ser eleito presidente da edilidade, a descida generalizada do preço da água ao consumidor. Foi ele quem, numa intervenção pública, ainda disponível no Youtube, intitulada «1ª Parte: A Verdade do Estado do Município», classificou o cenário então vigente de “pouca vergonha”.
...foi aprovado um regulamento, que esteve em consulta pública, mas pautado por burocracias mil. Inclusivamente, assegurou-se a inscrição no Plano e Orçamento de uma verba de vários milhares de euros para apoiar cerca de uma centena de agregados familiares. Contudo, as contas mais recentes atestarão que a taxa de execução deste regulamento terá sido de… 0%!
Estava escrito nas estrelas que a promessa não era concretizável. A AdRA tinha como objetivo igualar todas as tarifas camarárias. Como em Albergaria as tabelas estavam abaixo do praticado por alguns municípios, sempre se afigurou evidente que os tarifários iriam sofrer fortes agravamentos, o que veio a acontecer. Os aumentos acumularam-se para sobrecarga dos orçamentos familiares dos albergarienses.
Fomos acompanhando, pelos relatos saídos da Assembleia Municipal local, as abordagens que o assunto foi merecendo. Especial destaque para uma proposta visando uma resposta social que preconizava, pelo menos, a redução do preço da água para as famílias carenciadas, ajudando assim a mitigar o efeito dos aumentos sucessivos entretanto verificados. Inicialmente rejeitada, essa moção acabaria, tempos depois, aprovada por unanimidade. Neste particular, merecido reconhecimento para a perseverança e sensibilidade demonstradas pelo deputado Eduardo Castro Marques.
Em consequência, foi aprovado um regulamento, que esteve em consulta pública, mas pautado por burocracias mil. Inclusivamente, assegurou-se a inscrição no Plano e Orçamento de uma verba de vários milhares de euros para apoiar cerca de uma centena de agregados familiares. Contudo, as contas mais recentes atestarão que a taxa de execução deste regulamento terá sido de… 0%!
... o responsável do piquete diria naquela intrincada ficção que tinha preferido, afinal, ir para casa almoçar com os seus. Daí a demora. Compreensível. Naquela realidade íncuba, era sexta-feira. Estava calor. Os consumidores - assegurei-lhe - também teriam gostado de fazer o mesmo. Ofereceu-se para me levar a sua casa e aí tomar banho, almoçar por sua conta e até pagar a fatura relativa àquele mês. Recusei.
Por coincidência, numa destas noites de precoce canícula, fui atormentado por um pesadelo de ensandecer a mais serena das almas ao ponto de ter acordado, sobressaltado, a repetir o questionamento daquele impressivo programa da Sic “E se fosse consigo?”
Imagine o prezado leitor que sonhei viver numa terra onde o preço da água era exorbitante e os cortes no abastecimento invulgarmente frequentes. Um suplício em que, por exemplo, me via ensaboado sem água para completar o duche e onde era vulgar não ter pinga de água nas torneiras para que a minha família pudesse realizar outras tarefas diárias, absolutamente elementares, ou tomar um medicamento empurrado por um simplório gole do precioso líquido. Um terror.
A certa altura daquele sono opressivo, recordo que o realismo daquela angústia foi de tal monta que me levou a dizer “basta!”. Num desses momentos em que não corria, há horas, água nos canos e os sucessivos prazos para o restabelecimento do fornecimento eram reiteradamente desrespeitados, fiz sentir a minha profunda indignação através dos contactos institucionais disponibilizados para o efeito.
«Fique descansado. Isto não é a brincar. A nossa empresa é líder no atendimento ao cliente!»
Daquele sonho penoso, lembro que, estando sem almoçar e tomar banho, alguém enterra o dedo na campainha lá de casa. Foi aquele momento dos sonhos maus em que a nossa respiração se acelera e os lábios se dobram. No pesadelo acabara de entrar o funcionário (ou colaborador?) da empresa das águas. Enrolado em explicações incoerentes, garantiu para breve a normalização da situação. Como tal não sucedeu, insisti na veemência da reclamação. Sentia-me desrespeitado por pagar tão caro um serviço tão vexatório. Arremedos de quem tem pesadelos. Parecendo sincronizado com a receção dos meus e-mails, regressa o homem do piquete para erguer as mãos ao céu e pedir-me desculpa.
Nos pesadelos, também há interlúdios humanoides. Pois bem, o responsável do piquete diria naquela intrincada ficção que tinha preferido, afinal, ir para casa almoçar com os seus. Daí a demora. Compreensível. Naquela realidade íncuba, era sexta-feira. Estava calor. Os consumidores - assegurei-lhe - também teriam gostado de fazer o mesmo. Ofereceu-se para me levar a sua casa e aí tomar banho, almoçar por sua conta e até pagar a fatura relativa àquele mês. Recusei. Nos pesadelos, tenho esta tendência para a compaixão que roça o lirismo primário. Fiquei então com os contactos do próprio e do seu superior, com a recomendação de que bastaria remeter um e-mail para ser ressarcido. «Fique descansado. Isto não é a brincar. A nossa empresa é líder no atendimento ao cliente!»
Há pesadelos extenuantes. Recordo até, palavra por palavra, a demanda que redigi. Virei-me para outro lado, esperando encontrar melhor feição no travesseiro para prosseguir um sono mais descansado e vejo-me inexplicavelmente regressado àquela angústia quase um mês depois, sem qualquer resposta da malfadada empresa ou sinal daquele benemérito homem do piquete. Apenas com nova e implacável fatura para pagar. Ainda bem que foi só um pesadelo. Na minha terra, nada disto aconteceria. Ou como sentenciou a minha mulher: «só mesmo tu para te lembrares dessas coisas…»
José Manuel Alho
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