Sobre as eleições autárquicas em Albergaria,

Uma espécie de balanço


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Texto de José Manuel Alho


O povo é soberano. Os resultados eleitorais do sufrágio autárquico do passado dia 1 são claros e refletem a vontade maioritária dos albergarienses. Parabéns aos vencedores e sinceros votos de felicidades para o futuro próximo. O sucesso dos agora eleitos corresponderá ao bem-estar e progresso dos albergarienses. De facto, a vontade popular é sagrada. As escolhas podem, para alguns, parecer momentaneamente incompreensíveis ou até mesmo injustas. Ainda assim, sentimentalismos que não cabem numa avaliação racional dos factos e dos números, no caso, vincadamente expressivos. O pior, na ótica de quem viu as suas propostas vencidas, seria hostilizar os eleitores, culpando-os da sua ineficácia. Erro crasso, que apenas acentuaria azedumes tragicamente contraproducentes.


 



Enquanto uns aparentavam tudo ter e poder; outros, com imaginação e indisfarçável austeridade, confinavam-se a simbólicos punhados de caramelos nos bolsos. Diferenças com influência direta na criação de perceções que, gostemos ou não, determinam sentidos de voto.


O povão gosta de (pseudo)vítimas e, na iminência de participar em mudanças ou ruturas, revela-se conservador. Bem ou mal, concede – salvo exceções estatisticamente residuais – o benefício da dúvida. Por vezes, não é avisado contrapor a esta lógica comunicação eleitoral - que cria narrativas tão convincentes de tão simplistas – uma tipologia de campanha prolixa em propostas e em alternativas para as quais ainda não existe o necessário sentimento do desgaste que as acomode. 


 



Campanha com elevada exigência. Sem antecedentes de militância político-partidária, fiz a minha estreia numa campanha eleitoral, sem prescindir do meu estatuto de independente. Desengane-se quem pensa que as campanhas, mesmo a nível local, são feitas com amadorismo e desmesurado voluntarismo. Existem assessorias e processos de monitorização à escala do que se faz nos prélios nacionais. Requer perfis de desempenho muito acima da generosidade, porventura quixotesca, de quem se desgastava a pintar as siglas partidárias nas mais movimentadas vias municipais ou a trepar os postes de iluminação pública para afixação da mais emblemática propaganda. Atualmente, trata-se de uma empreitada com elevada exigência intelectual, emocional e física. Neste caso concreto, existiram, sem qualquer menosprezo pelos demais contendores, duas campanhas, que se marcaram mutuamente, mas usando de meios e poderios diametralmente opostos. Enquanto uns aparentavam tudo ter e poder; outros, com imaginação e indisfarçável austeridade, confinavam-se a simbólicos punhados de caramelos nos bolsos. Diferenças com influência direta na criação de perceções que, gostemos ou não, determinam sentidos de voto.


 


Episódios e erros próprios. Como de costume, as campanhas são feitas de episódios e casos. Esta não fugiu à regra. Destaque inteiramente merecido para a eficácia de quem, com tempo e outras vantagens irrepetíveis, soube criar a sua perceção de modo provadamente eficaz. O povão gosta de (pseudo)vítimas e, na iminência de participar em mudanças ou ruturas, revela-se conservador. Bem ou mal, concede – salvo exceções estatisticamente residuais – o benefício da dúvida. Por vezes, não é avisado contrapor a esta lógica comunicação eleitoral - que cria narrativas tão convincentes de tão simplistas – uma tipologia de campanha prolixa em propostas e em alternativas para as quais ainda não existe o necessário sentimento do desgaste que as acomode. De igual modo, em plena campanha, não se antecipa recomendável aquela “dureza de rins” que resiste a ajustes ou correções de estratégia. No essencial, os resultados, sabemo-lo hoje, acabaram por surpreender uns e outros. Quando se antecipavam vitórias por curta margem, todos acabaram pasmados com as diferenças percentuais alcançadas. Muito além do expectável.



Confesso que, desde o primeiro conhecimento dos resultados, nunca experimentei a solidão da derrota nem a frustração dos preteridos. Tenho – e continuarei a ter – vida para além da política. O carinho com que, entretanto, tenho sido brindado, reconheço-o, apanhou-me de surpresa e acho-o genuinamente imerecido. Estive sempre longe de poder valorar o real impacto do meu contributo. Vim para esta luta porque fui convidado por um Líder, Licínio Pimenta, e porque fui convencido por um projeto para Albergaria. Não me arrependo. Porque sou e continuo livre. Assumirei o mandato que recebi dos eleitores.



 


Reconciliação. Reinvenção. Inteligência emocional. Para quem, como eu, participou no “porta-a-porta”, sentiu, com dolorosa clareza, o descontentamento ora com o PSD nacional, ora com o passado recente do PSD local, ainda que, neste caso, julgado em 2013. As pessoas, muito legitimamente, pensam com os bolsos e não se dispõem a calar mágoas que deixaram lastro. E, em alguns casos, cicatrizes que nem o tempo disfarçará. Creio, no entanto, que o processo de reconciliação já iniciado poderá vir a conhecer um especial incremento se esta injeção de gente nova (no partido e na política) tiver sequência e consequência. Há que saber mesclar o melhor de todas as gerações. Os mais velhos precisam da inovação e do arrojo dos mais novos. Os mais novos precisam da experiência e do saber dos mais velhos. Em complemento, assoma-se, no meu modesto entendimento, o imperativo de viabilizar, sem descaracterizar, uma reinvenção que combine predicados intemporais com virtudes contemporâneas. Por exemplo, a definição e implementação de uma estratégia comunicacional só trará proveitos se incorporar novas abordagens, meios e recursos. Se assim não for, todos os esforços serão inglórios. Ademais, seria um pecado deitar à rua a base que agora se construiu para, daqui a quatro anos, recomeçar do zero. Impõe-se usar de inteligência emocional. Nem tudo está bem – como se viu no passado – quando se ganha continuadamente como nem tudo está mal quando se perde por números tão esclarecedores.


 


Por uma Assembleia Municipal mais próxima e transparente. Assumindo, desde o início, que as pessoas estão cansadas dos truques e das habilidades que apoucaram a nobreza da atividade política, fiz questão de não enveredar pelo ataque pessoal e pela crítica fácil, usualmente destrutivos. Do diagnóstico que fizemos, sinalizámos a premência de proximidade no diálogo, no debate, no esclarecimento e na informação. Batemo-nos por iniciar uma nova forma de comunicar e de interagir com os nossos munícipes e eleitores.


Um registo próximo, porque chegaria a todos, e sério, porque trouxe para a campanha política o que realmente interessa(va). Comprometemo-nos com mudanças transformadoras e um registo garantidamente diferenciador. Tudo em prol de uma Assembleia Municipal (AM) próxima dos Cidadãos, capaz de demonstrar a sua importância, afirmando-se como a nossa verdadeira Casa da Democracia, da tolerância, da formação cívica e da defesa dos interesses das populações.



Deixei esta campanha sem ter violado nenhum dos princípios ou valores que tenho por imprescindíveis à dignidade de quem está na res publica para servir. Nunca me passou pela cabeça amesquinhar os adversários, conotando-os, por exemplo, com «pequenos ditadores de pacotilha». Há fronteiras e limites que jamais ultrapassarei. Uma questão de civilidade.



 


Três compromissos. Ostentamos, com orgulho, a memória de quem propôs três compromissos absolutamente cruciais à credibilização da ação política. O primeiro, de transmitir online as reuniões da Assembleia Municipal, promovendo um maior e mais sistemático escrutínio da ação de todos e de cada um dos membros da Assembleia Municipal, facilitando o acesso a dados tão relevantes como a assiduidade, a frequência e o conteúdo das suas intervenções. O segundo, consubstanciado na descentralização das reuniões da AM. Durante o próximo mandato, levaríamos a AM a todas e a cada uma das freguesias do nosso Concelho. Dar-se-ia, assim, cumprimento à promessa de investir numa maior proximidade entre os órgãos decisores e os munícipes, promovendo o contacto com a população de cada freguesia, no sentido de auscultar as suas opiniões e de melhor conhecer as suas reais necessidades. O terceiro, vertido no estabelecimento de um calendário de atendimento ao munícipe em que o Presidente da Assembleia Municipal estaria disponível para prestar contas do trabalho realizado e dos compromissos assumidos.



Escolhi transpor para o meu (tenro) percurso político a máxima que me tem guiado na carreira profissional: a única coisa que tenho por garantida é a chave do carro no bolso.



 


Gostou? E agora? Perguntas com que tenho sido confrontado. Confesso que, desde o primeiro conhecimento dos resultados, nunca experimentei a solidão da derrota nem a frustração dos preteridos. Tenho – e continuarei a ter – vida para além da política. O carinho com que, entretanto, tenho sido brindado, reconheço-o, apanhou-me de surpresa e acho-o genuinamente imerecido. Estive sempre longe de poder valorar o real impacto do meu contributo. Vim para esta luta porque fui convidado por um Líder, Licínio Pimenta, e porque fui convencido por um projeto para Albergaria. Não me arrependo. Porque sou e continuo livre. Assumirei o mandato que recebi dos eleitores. Apreciei a experiência e estou a apanhar-lhe o gosto. Conheci (muita) gente boa. Por não saber abraçar desafios pela metade, protagonizei a parte que me coube com determinação, paixão e vigor, em estreita lealdade para com as diversas equipas constituídas. Deixei esta campanha sem ter violado nenhum dos princípios ou valores que tenho por imprescindíveis à dignidade de quem está na res publica para servir. Nunca me passou pela cabeça amesquinhar os adversários, conotando-os, por exemplo, com «pequenos ditadores de pacotilha». Há fronteiras e limites que jamais ultrapassarei. Uma questão de civilidade.


Escolhi transpor para o meu (tenro) percurso político a máxima que me tem guiado na carreira profissional: a única coisa que tenho por garantida é a chave do carro no bolso.


José Manuel Alho

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