Obras, omnipotência, €uros e regabofe!


A mecânica que nos suga. A vida é – sabemo-lo há muito – um labirinto pejado de exigências, dificuldades e provações. Temos, enquanto povo de uma nação comprovadamente imortal, enfrentado circunstâncias que exaltaram a nossa têmpera de povo resiliente, solidário e desde sempre vocacionado para superar-se na adversidade. Contudo, num destes dias de maior disponibilidade mental - e, quiçá, espiritual - esforcei-me por observar a realidade. Dei por mim na rua de uma agitada cidade, mirando rostos empedernidos, com os olhos cravados na calçada, num andar tolhido pelo esforço de quem, sem melhor opção, se entregou àquela rotina que, mecânica mas progressivamente, vai sugando a individualidade que nos diferencia.


 


Distração, esse estado de ansiedade. Percebo o alheamento de quem leva o pensamento distribuído por infindáveis preocupações, dilemas e outras consumições. Em pano de fundo, um silêncio atroador, que inviabiliza cumprimentos, saudações ou outros atos da mais humana cordialidade, é pontualmente rasgado pelo sonido das buzinadelas arreliadas com a distração de quem, absorto, comete erros e falhas de ensandecer o santinho. De facto, as pessoas andam por cá, mas não estão cá. Uma ansiedade latente que nos desliga do presente e da vida. Um distraimento contagioso que nos empobrece.


 


«Porque, depois de nós, ainda haverá trabalho…» Foi também por isso que reli a “Oração para nos livrar da tentação da omnipotência”, de Pierre Faucher. Uma pequena prece que, animada por um recomendável pragmatismo terreno, roga o seguinte:


 


«Senhor, ensina-nos a repousar.


Ensina-nos


a deixar as coisas em suspenso,


a não querer arrumar tudo antes de dormir.


Ensina-nos


a aceitar que estamos cansados.


Ensina-nos a acabar uma jornada;


Senão


nem saberíamos morrer.


Porque, depois de nós,


Ainda haverá trabalho…


Ensina-nos


A aceitar que não somos Tu.»


 


A Escola Virtual em troca de mais de 23.000 €uros. A 27 de setembro de 2017, bem na antecâmara das eleições autárquicas, o executivo liderado por António Loureiro (AL), firmou com a Porto Editora, S.A., um contrato de prestação de serviços, que vigorará durante três anos letivos, visando a «implementação do projeto Escola Virtual, nas escolas do 1.º CEB», apregoando para o efeito a vontade de rentabilizar «os investimentos efetuados nos últimos anos, nomeadamente, em computadores, projetores e quadros interativos.» Por uma verba que ultrapassa os 23.000 €uros, acrescidos de IVA à taxa legal em vigor, a edilidade apostou na generalização das novas tecnologias de informação e de comunicação. Uma despesa que, sem prejuízo de outras apreciações, deve ser encarada como investimento na valorização do processo ensino e aprendizagem e no enriquecimento das estratégias didáticas.



Só no quarto e último ano do seu primeiro mandato é que AL, na sequência de todos os reparos e alertas aqui veiculados, entendeu adquirir alguns computadores RECONDICIONADOS para as escolas do 1.º Ciclo, mantendo um rácio de 1 computador por sala de aula, uma proporção que é pulverizada pela esmagadora dos municípios que connosco competem. Em complemento, faz-se notar que ainda há ainda um número muito considerável de salas SEM quadro interativo. 



 


Mesmo que virtual, a escola requer equipamentos. Contudo, impõe-se restabelecer a verdade dos factos. Só no quarto e último ano do seu primeiro mandato é que AL, na sequência de todos os reparos e alertas aqui veiculados, entendeu adquirir alguns computadores RECONDICIONADOS para as escolas do 1.º Ciclo, mantendo um rácio de 1 computador por sala de aula, uma proporção que é pulverizada pela esmagadora dos municípios que connosco competem. Em complemento, faz-se notar que ainda há ainda um número muito considerável de salas SEM quadro interativo. Por fim, uma questão que importa esclarecer: nos dois agrupamentos de escolas existentes no Concelho, quantos manuais legalmente adotados são da Porto Editora (PE)? Há outras editoras com plataformas digitais igualmente competentes. Por que razão se optou pela PE e não por outra?



Também na rua Gonçalo Eriz os trabalhos parecem não ter fim à vista. Depois de AL ter assegurado, em resposta a uma questão por mim colocada em Assembleia Municipal, que a ponte junto ao cemitério seria efetivamente alargada, constata-se que a obra pouco ou nada avançou. Pior, os residentes continuam sujeitos a toda a sorte de limitações. À data em que escrevo, o trânsito na cidade está caótico.



 


Quinze horas com alunos para ir à Assembleia da República. De novo, a Câmara Municipal organiza, num só dia, a deslocação à Assembleia da República e ao Oceanário para as escolas do 1.º Ciclo do Concelho. Escolhe a data. Agenda a hora de partida e estima a hora de chegada. Se tudo correr bem, serão - ao arrepio de todas as disposições legais - quinze horas (!) de contacto direto e continuado com alunos que os docentes terão de assegurar sem qualquer tipo de compensação. Não sendo os professores assalariados da edilidade, fica à consciência dos promotores e à consideração dos que consentem tamanho sacrilégio laboral e educativo a livre apreciação desta iniquidade. Ou será que tudo se paga(rá) “em espírito de equipa”?


 


Ano novo, novos concursos. Entretanto, o início do ano fica marcado pela abertura, para a Câmara Municipal, de procedimentos concursais para provimento de cargos de direção intermédia. Parece existir uma flagrante diferença de critérios para cargos com… o mesmo grau. Por que será? – indaga, em tom cândido, o inocente.


 


As obras que persistem e exasperam a população. Ponto prévio: é consensual que qualquer intervenção em espaço ou via públicos acarreta prejuízos e constrangimentos de vária ordem. Porém, e desde que a obra seja atempadamente explicada e competentemente executada, as populações tendem a ser (mais) tolerantes. Infelizmente, não é isso que se vai percecionando em Albergaria. Também na rua Gonçalo Eriz os trabalhos parecem não ter fim à vista. Depois de AL ter assegurado, em resposta a uma questão por mim colocada em Assembleia Municipal, que a ponte junto ao cemitério seria efetivamente alargada, constata-se que a obra pouco ou nada avançou. Pior, os residentes continuam sujeitos a toda a sorte de limitações. À data em que escrevo, o trânsito na cidade está caótico. A sinalização, recorrentemente alterada (ou até mesmo ambivalente), de contornos labirínticos, não tem contribuído para atenuar os severos condicionamentos à livre circulação de pessoas e bens. Nas horas de ponta, o trânsito vira arena de múltiplas atrocidades. Consequência óbvia de uma explosiva combinação de vias fechadas, com maiores concentrações de trânsito e tremendamente potenciada pela drástica redução da área disponível para o estacionamento. Não se vê a GNR. Mas porquê? Porque a autarquia não o solicitou? Porque a GNR não dispõe de efetivos suficientes? Alguém que faça o favor de (nos) explicar o regabofe de que temos sido vítimas.


José Manuel Alho

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