Opinião. Educação. Para onde nos levam?

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Vivemos tempos que nos exortam a olhar criticamente o país e o mundo, sem prescindirmos de padrões mínimos de normalidade. Não se trata de lucubrar sobre o transcendente. Não. Apenas de afirmar verdades e evidências, que precisam ser ditas.


 


Vem isto a propósito da recente pseudocrise governamental argutamente cinzelada pelo atual Primeiro-Ministro na questão do reconhecimento do tempo de serviço já prestado pelos professores portugueses nos últimos 9 anos, 4 meses e 2 dias. Fazendo tábua rasa de compromisso anteriormente vertido em letra de forma, e percebendo os prós e os contras dos circunstancialismos de um calendário eleitoral que ameaça inverter as expectativas iniciais, burilou um cenário onde a chantagem e o oportunismo se combinaram para desarmar os principais adversários políticos. Criticável, mas legítimo.


 


Infelizmente, fê-lo – ao melhor jeito de Maria de Lurdes Rodrigues, que chegou a ser condenada, em 2014, por prevaricação de titular de cargo político, no caso da contratação do irmão do dirigente do PS, Paulo Pedroso, mas posteriormente absolvida – estimulando uma reação de ódio ou de inveja social contra os docentes, identificando por essa via um alvo concreto para a origem de uma crise que rotulou de “irresponsável”.


 


Com tão cavernosa deriva, o governo não cuidou do interesse público. Mais do que dar o dito pelo não dito, incumprindo compromisso anteriormente firmado - através da Resolução da Assembleia da República Nº 1/2018, aprovada (com os votos do PS) no dia 15 de dezembro de 2017, a qual «recomenda ao Governo a contagem de todo o tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira» - com dano irreparável para a credibilidade da ação política, desautorizou, apoucando, uma classe profissional cujo prestígio e nobreza, absolutamente cruciais para o seu desempenho, foram, assim, atacados.


 


Em outros casos, envolvendo burlas e fraudes de biliões de €uros, que ainda levam milhões de portugueses ao charco, não se ouviu ameaça de demissão. Mesmo até quando morreram dezenas de pessoas por manifesta falha do Estado na consecução de funções elementares. Quem se demitiu?!


 


Grande parte da população não percebeu que foi alvo de uma manobra de diversão pois, enquanto durou tão artificial dissensão, não se falou de outros assuntos verdadeiramente essenciais, cuja partilha e denúncia descomporiam uma casta de salteadores contumazes que há largo tempo goza com o pagode.


 


E porque a qualidade de uma Democracia também se mede pela valia da sua comunicação social, um lamento para a forma impreparada, muitas vezes truncada e manipuladora, com que o assunto – colocado usualmente de forma capciosa – foi tratado por jornalistas e comentadores que, em nome das audiências, recuperaram chavões falsos e propagaram toda a sorte de preconceitos atávicos.


 


Sintoma de degradação e de especial perversidade é, por fim, constatar um governo compreender que maltratar professores dá votos e melhora as sondagens.


 


Que país é este? Para onde nos levam?


José Manuel Alho

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