A Educação e a Pandemia - Ciclo de Tertúlias Digitais do PSD Albergaria.


Foto retirada daqui

O que é que a Escola (professores, alunos, famílias) aprendeu com a pandemia COVID-19?


Num primeiro momento, a resposta aprendemos a valorizar o que é essencial. E a Escola está entre o que é essencial para o bem-estar e progresso das sociedades contemporâneas.


Importa puxar o filme atrás. Naquela semana de março, que culmina com a decisão de encerrar as escolas em Portugal, as declarações do Primeiro-Ministro apontavam para a manutenção em funcionamento de todos os estabelecimentos de ensino.


A perceção que ficou foi que o encerramento terá sido forçado pela União Europeia. O encerramento das escolas nunca foi desejado: logo, não foi antecipado nem preparado.


Ficou claro que não havia estratégia nem plano. Veja-se o exemplo: a ESCOLA PÚBLICA passou a subsistir graças aos computadores dos Professores e das famílias; graças à internet paga por Professores e famílias; graças à eletricidade paga por Professores e famílias.


Com a poupança na manutenção dos edifícios e noutras despesas correntes que baixaram para níveis simbólicos, o Ministério da Educação (ME) poderia ter-se articulado com as operadoras para disponibilizar a alunos e professores tarifários mais acessíveis. Nem os sindicatos, nem as organizações representativas dos Pais e Encarregados de Educação se lembraram de empunhar esta bandeira, ditada pelo mais elementar bom senso.


Portanto, com a interrupção da atividade letiva presencial imposta pela pandemia, era – e é! - imperativo que:



  1. Não se agravassem as desigualdades e injustiças que a escola pública, num regime de aprendizagem presencial, sempre se preocupou em esbater, atenuar;

  2. Não consentir que, com o Ensino à Distância (E@D), se avaliasse a condição socioeconómica das famílias.


 


E como é que isto se consegue? Como se operacionaliza? Difícil. Contava que o ME, mais do que a conta gotas, divulgar princípios e orientações, explicasse COMO SE FAZ.


 


Em conclusão: a ESCOLA, os professores aprenderam, uma vez mais, a reinventarem-se, entrando num regime de jornada laboral sem limite horário, origem da exaustão que todos estão a sentir. Os alunos, numa situação que nunca anteciparam ou sonharam, aprenderam a valorizar a ESCOLA e a estimar o que ela tem e significa para o seu crescimento integral e harmonioso. As famílias, estou certo, com GRANDE sacrifício, adaptaram-se a esta conjuntura de extraordinária exigência e creio que voltaram a ver a Escola e os Professores como parceiros que a sociedade não pode negligenciar ou hostilizar; bem pelo contrário, deve reconhecer e valorizar.


 



Não pode prescindir dos afetos, do sentimento, do olhar, da cumplicidade que o ensino presencial possibilita. Ali está o enriquecimento social e pedagógico que são determinantes para alcançar o pleno sucesso educativo. E deles depende a eficácia comunicacional de quem ensina e aprende.



 


 


O que é que é necessário para que o ensino presencial se enriqueça com as tecnologias?


Resposta simples mas esclarecedora: o ensino presencial NÃO deve descaracterizar-se.


Entendo que se deve aproveitar e otimizar o melhor das novas tecnologias, mas numa lógica de complemento à ação humana, do Professor.


Mas para isso será necessário um verdadeiro Plano Tecnológico, a grande escala, para dotar escolas, alunos e professores dos equipamentos que estão claramente em falta.


Não pode prescindir dos afetos, do sentimento, do olhar, da cumplicidade que o ensino presencial possibilita. Ali está o enriquecimento social e pedagógico que são determinantes para alcançar o pleno sucesso educativo. E deles depende a eficácia comunicacional de quem ensina e aprende.


Atente-se no caso francês onde um conjunto de organizações da sociedade civil pondera colocar o Estdo em tribunal por estar a obrigar crianças e jovens a permanecerem, cinco horas por dia, em frente a um ecrã. Pediatras e psiquiatras antecipam m surto de doenças degenerativas daqui a 25/30 anos. O risco de doenças neurológicas e metabólicas bem como o risco de aumentos de disfunções sociais não pode ser negado ou desvalorizado.


Os professores não podem ser robôs e os alunos indivíduos passivos, sem vontade ou personalidade próprias.


Lendo a imprensa digital de alguns países da América Latina, percebe-se que há decisores políticos que se aprestam para, a pretexto desta situação de exceção, generalizarem e normalizarem alternativas,  que apostam no incremento do rácio professor/computador e aluno/computador, para obterem poupanças orçamentais.


Em resumo, o ensino presencial pode beneficiar muito mais do que já beneficia SE as novas tecnologias forem usadas numa lógica de complemento à ação do Professor, com peso e medida e SE as ESCOLAS, os Alunos e os Professores dispuserem de equipamentos que, em qualidade e quantidade, enriqueçam o processo de ensino e aprendizagem.



Por todo o mundo, as placas tectónicas dos sistemas educativos moveram-se. E por isso entendo que devemos aproveitar esta oportunidade, que pode ser única, para resolver problemas estruturais


 



O Ministro da Educação falou na possibilidade do b-learning (sistema híbrido). Estará a Escola (professores, alunos, famílias) preparados para esta revolução? Estará o ensino presencial em risco?


O ensino presencial não creio que esteja em risco.


E mesmo o sistema b-learning deverá ter – julgo eu – um caráter excecional e transitório, isto é, enquanto durar esta situação pandémica.


A ESCOLA, os Professores, os Alunos e as Famílias estarão tão mais preparados quanto o Estado crie as condições, nomeadamente através de um ousado Plano Tecnológico, para, TODOS, estarmos melhor apetrechados para elevarmos a nossa capacidade de resposta


Por todo o mundo, as placas tectónicas dos sistemas educativos moveram-se. E por isso entendo que devemos aproveitar esta oportunidade, que pode ser única, para:


 



  • Resolver a questão da obesidade dos curricula;

  • Resolver a questão da lógica de avaliação que deve imperar: ou a lógica de Ciclo ou a que decorre das Metas Curriculares, assente na anualização das aprendizagens;

  • Dimensionar turmas, horários e cargas curriculares;

  • Reorganizar rotinas, mormente no usufruto de espaços comuns;

  • Repensar procedimentos que, finalmente, contribuam para a desburocratização da função docente.


 


Há, ainda, uma questão muito sensível que gostaria que fosse cabalmente aclarada: o recurso às videoconferências, às videochamadas - ainda que recomendado e até estimulado - poderá estar a passar várias linhas vermelhas, nomeadamente o direito à imagem e o direito à privacidade de alunos (menores de idade) e professores.


Seria bom que o ME circunscreve-se o âmbito desta questão e a colocasse à Comissão Nacional de Proteção de Dados. Seria, a todos os títulos, lamentável que, mais tarde, viéssemos a concluir que se cometeram vários ilícitos tão fácil e rapidamente, mesmo que à custa do voluntarismo generoso de diretores e professores.


Resumindo:  julgo que a realidade está aí para demonstrar que estamos preparados para essa revolução SE também  o Estado fizer a sua parte no processo de criação de todas as condições para que professores, alunos e famílias tenham sucesso.


E, pelo que atrás disse, acho que o ensino presencial não está em risco, embora todos devamos estar atentos a eventuais derivas economicistas, que mais tarde pagaremos bem caro.


José Manuel Alho


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