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Imagem Freepik | meramente ilustrativa
Paula entrou com aquele mesmo esgar impenetrável de funcionária administrativa talhada para a rotina de um escritório de seguros. A saudação matinal, naquele tom monocórdico e descomprometido, que nada revela ou oferece, colhe a resposta mil vezes repetida pelos cúmplices de cenário.
O rosto, sem as habituais nuances de uma maquilhagem personalizada, denuncia um cansaço estranho, que parece camuflar outras dores, enraizadas nas rugas mais profundas das suas entranhas.
Habituou clientes e colegas a uma organização obsessiva, que nada ignora ou menospreza. O brio e a prioridade que dispensa a cada cliente, como que conhecesse a individualidade de cada um ao ponto de a todos aconselhar com devota sinceridade, esmoreceram. Também o bonsai iniciou o seu definhamento.
Longe vão os tempos que a celebrizaram como inesperada, mas forte defensora das vantagens do bonsai enquanto prática de relaxamento e de fuga ao stress naquele escritório credor de mais janelas. “Por cada bonsai, uma janela”, apregoava com vincada e metafórica militância. Todos recordam aquele pendor missionário com que se entregou à causa de “um bonsai para todos”. Gravada na memória coletiva está ainda a analogia por ela achada com o desempenho profissional: “Um e outro, para serem perfeitos e apreciados, necessitam de uma grande dedicação, paciência e de alguns cuidados fundamentais.” Mais do que as questões da localização ou da luminosidade, a maioria das colegas parodiavam o rigor e a delicadeza de movimentos com que procedia à poda daquela pequena árvore. “Só tem filosofia!...”, largavam com indisfarçável fel.
Hoje, o bonsai apresenta ramos frágeis, descaídos e as folhas descoloradas, pejadas de lixos e poeiras. Está doente. Como Paula, a invejada funcionária que a todos superou. Há poucas semanas, recebeu o veredicto, qual sentença de morte, de um tumor cerebral inoperável. Menos de três meses de vida para rever e projetar a vida que um dia sempre quis.
Solteira, à beira dos quarenta, nada tem por legar. As parceiras, com despudorada insensibilidade, já lhe disputam a carteira de clientes e até – imagine-se - a secretária.
O amanhecer deixou de implicar a habitual patela de cores. Adormecer é um tomento, entregue aos ditames de fantasmas e outras assombrações. Tem saudades de si, do que já foi. Houve um tempo em que gizou planos venturosos. Houve um tempo em que sonhou alto. Houve um tempo em que almejou ser mãe e constituir família. Houve um tempo… Houve um tempo…
Numa destas madrugadas iluminadas por mil insónias, deteve-se num documentário sobre os benefícios da banana. Ouviu que fornecia energia para o trabalho, que combatia as depressões as dores de cabeça, o cansaço matinal e, acima de tudo, ajudava o cérebro, favorecendo a concentração. Tudo o que mais precisa(va) para suportar o fardo de uma vida com termo (já) marcado.
Contrariando tendências e hábitos, levantou-se madrugada dentro para confecionar uma salada de banana. Descascou e cortou as bananas e um par de cebolas em fatias. Aqueceu o óleo numa frigideira e salteou as cebolas em lume brando durante uns quinze minutos. Adicionou duas colheres de chá de caril em pó e fritou até começar a soltar aquele aroma que tanto aprecia. Juntou as bananas e o vinagre. Tirou do lume. Finalmente, adicionou as sultanas e colocou numa travessa. Até arrefecer. Guarneceu com coentros picados. Estava feita a mais recente mezinha para, à sua maneira, combater o mal que literalmente se refugiara na cabeça. Por momentos, deixou de ter saudades de si.
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