Crónicas com tradição (XIV) - A Salada d’Amiga

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Imagem Freepik | meramente ilustrativa


O verão, já de malas feitas, apresta-se para abençoar outras terras do globo. Para quase todos, fica o travo amargo de umas férias que começaram tarde e acabaram antes do tempo.


No filme que a vida gravou para memória futura, ficaram quilómetros de estradas erráticas, de paisagens arrebatadoras celebrizadas por praias, montanhas, convívios e romarias que se viveram com o pasmo essencial de quem se deixa suspender pela surpresa dos instantes.


Finou-se aquele “dolce fare niente” da vida entregue ao ócio. Do ócio gratuito que (nos) relaxa sem necessariamente estupidificar.


Setembro, qual chave d’ouro, abençoa os seus apaniguados com um sol que a todos aperta com um calor porventura inusitado para a época. Com este tempo, não apetece nada quente.


Quimbé, trintão abrasonado por um celibato com benefícios, está de volta ao trabalho e também à cozinha. À cozinha onde ganha à vida à custa de uma “ementa verde” e são as saladas que o divertem porque qualquer recomeço – principalmente o que dita o regresso à rotina de sempre… - deve ser feito com coisas simples.


De lenço berrante amarrado à cabeça, inaugura os rituais que sacralizou para não desafiar a sorte. Há superstições que não descura. É melhor não afrontar o oculto. Entrar na cozinha com o pé direito para logo de seguida abrir e fechar todas as gavetas são ações de um protocolo que impôs a si mesmo.


Contudo, sente um vazio que o angustia e oprime. Uma ausência demasiado penosa, que não se ignora com um qualquer truque de algibeira para fintar o pensamento. Falta a Amiga, cadela de raça pequinês. Menos três quilos de gente que o preencheram na última dúzia de anos de uma forma que agora sente insubstituível. Os dois, com incumbências muito próprias, viviam à custa um do outro. Dois animais de hábitos que preenchiam espaços e atenuavam ausências. Uma cumplicidade desinteressada que aprofundaram sem exigências ou outras condições prévias.


Quis a vida que uma septicémia a levasse num par de dias. Todos os esforços e orações não chegaram para impedir o inevitável. Pediu-LHE que poupasse a Amiga. Propôs-LHE abdicar dos projetos mais queridos de vida só para não perder quem tanto bem lhe fez. Mas nenhum negócio foi feito. Chorou como quem perde, da noite para o dia, um pai ou uma mãe que aprendeu a amar e a estimar. Sentiu-se culpado. Perguntou-se “porquê a mim?!”


Impelido por uma dor sem remédio, quis água para afogar semelhante incêndio que lhe consumia as entranhas. Por isso, foi lesto a livrar-se de todos os objetos que eram SÓ da Amiga. E tudo ficou (ainda) mais desabitado.


A vida perdeu sabor e as divisões que ambos atravessavam estão hoje envoltas em recordações mil. Por vezes, ainda fala para a Amiga. Só depois se apercebe que está só.


Momentos há que, à semelhança do que acontecera com duas tentativas de fuga da fiel companheira, alimenta a tonta esperança de que afinal ela voltará a regressar “against all odds”. Adormecer e acordar são momentos de aflitiva solidão. Esgotou-se aquela patela inesgotável de cores, odores e movimentos que sempre teve por garantida. Revoltou-se. Conformou-se.


Fez o seu luto com a iniludível autenticidade de quem perdeu um dos seus. Suspira sincopadamente por desgosto, que já não quer ocultar ou disfarçar.


Mais do que nunca, esforça-se por encontrar uma forma de a homenagear, um ato que comemore tão assombrosa passagem pela sua vida. Como a Amiga era louca por morangos, Quimbé vai ensaiar uma salada daqueles frutos silvestres com tomates cherry.


Lavou uma dezena de morangos e de tomates cherry. Cortou-os ao meio e temperou-os com sal, pimenta, azeite e vinagre balsâmico. Esperou um quarto de hora e… voilá!


Concluído o derradeiro tributo. A “Salada da Amiga”. Como ela. Simples. Bastante. Incomparável.


 


PS - Uma muito humilde homenagem à QUICAS (1996 – 2012), a minha cadela, que adormeceu num sono eterno a 2 de setembro/2012.

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